Sem raízes, não há futuro!

Seria bom que este Natal tivesse sido o início de uma nova caminhada.
Onde algumas palavras ganhassem nova projecção, novo conteúdo e muitos, sob aquela capa de modernidade enfatuada, deixassem de ser ocos, despidos e, nalguns casos, burros como um penedo!
O elixir para a resolução de todas as inquietações mundiais não está dentro de alguém em especial, mas como tal fechadura só pode ser aberta se cada um começar por mudar algo dentro de si.

Ainda há dias sofri tratos de polé para chegar a Castro Laboreiro, mas por lá descobri em escassos dois dias algumas coisas que nas cidades nem sombra de pó, e aqui nesta amálgama de campo sufocado pela indústria em que vivo vamos tendo aqui e ali.
Notei como as gentes locais eram incapazes de passar por alguém sem saudar chegando um ou outro homem, respeitosamente, e ante a presença de três mulheres levemente erguer o chapéu!
Contrariamente, aquando do primeiro almoço (espantosamente em restaurante a pretender ser moderno e preços citadinos a quilómetros do serviço), foram três gerações de gordos e anafados citadinos quem me proporcionou a boçalidade no mais puro estado embora a Dona Avó, num tom galináceo, nunca tivesse sido capaz de tratar o Tomás por mais que “você” assim se esforçando por mostrar aos restantes, a quem pouco remédio restava senão ouvir-lhe o cacarejar, a sua superiodade. Moral e certamente intelectual!

E chegada a hora da janta, desta feita em frente a lareira descomunal, esmagado pelas pedras de granito da tarde, os tons mil da folhagem e o gorgolejar da água gelada, atirei-me decidido a uma sopa onde até as couves pareciam saber a terra e, juro-vos, pelos deuses, me refastelei com um bife que sabia a … carne!
Rumado ao hotel, onde nova lareira aguardava os atrevidos caminhantes nocturnos que mais pareciam almas penadas pois mais ninguém se via na rua, embora até as estrelas parecessem mais luzidias, sou surpreendido pela gentileza de “os cafés são por conta da casa”.

No dia seguinte, a surpresa de saber uma das empregadas do hotel prima duma doutora com quem a minha consorte estudou e que, face a esta amizade, não só se penitenciou ela pela prima ausente (que fora a Ourense) como ainda telefonou a duas tias que fizeram questão de ali comparecer com umas gentis ofertas de pão e fumeiro caseiro. E como uma das velhas se lembrava de “a menina que aqui esteve há vinte anos e está na mesma, que Deus a benza”.

Assevero-vos, ainda, que outra coisa que andamos a perder é aquele ar que de tão puro até parece que nos corta as entranhas.
E, no entanto, Castro Laboreiro não é o paraíso, antes um retrato deste nosso Portugal que se esqueceu de uma parte de si.
Os poucos jovens que lá vi asseguravam que lá não ficavam, os velhos aguardam chorosos pelos filhos que vêm para as festas, as estradas, essas basta atravessar a fronteira para percebermos que andamos a ser enganados há anos por quem nos garante a prosperidade … médico nem vê-lo, farmácia uma apenas mas nada de centro de Saúde ... nem advogado, pasme-se!
Restam as gentes, certamente que rudes aos olhos de um qualquer urbano metido a besta mas cuja simplicidade tocante devíamos procurar. Dentro de cada um de nós.
Estou cada vez mais convencido que só quem sabe onde estão as suas raízes pode procurar almejar o futuro!

Porque os dias que correm são especiais ...


Faltava um dia para o Natal...

... e por toda a casa se sentia a alegria da antecipação...
As luzes na árvore tremeluziam, o fogo na lareira crepitava e todo um halo de alegria transbordava nos rostos dos habitantes.
Lá fora, o frio e o vento faziam estremecer as pedras, mas as luzes montadas propositadamente para a época desde o mês de Novembro, pareciam querer aquecer os corpos daqueles que se tinham esquecido que a véspera foi feita para se passar em casa e não na rua...

Corpos enregelados e enfraquecidos pela fome, acotovelavam-se numa beira de escada, em busca de conforto e algum calor. O som do estômago sobrepunha-se ao sono e o mal estar era evidente. Ainda assim, os poucos transeuntes àquela hora, passavam sem olhar. Era hábito...

O vento e o frio desafiavam-se e juntar-se a eles veio a chuva. A tríade revezava-se na força e no desafio, o assobio e a saraivada, o ronco do estômago e o tremeluzir das luzes... tudo confluía numa harmonia difícil de igualar.

Os corpos enregelados já não pareciam ter vida. Aquela estava a ser uma noite particularmente difícil de aguentar.

Dentro das vidraças a família gargalhava com alegria. Estavam juntos novamente. Havia tanto tempo que não se encontravam todos à mesma mesa.
O filho perdido estava de novo ali. Tinham-no resgatado à rua, à droga, à podridão da morte em vida. Ele estava ali, e pareciam ter voltado a viver. A rua não se tinha ficado a rir, nem a droga, nem os que o queriam na lama. A família tinha conseguido ultrapassar a dor, o tormento e a desilusão. O orgulho era agora imenso, a alegria ameaçava transbordar o copo e elevá-los a todos a um estado de elevação possível apenas aos iluminados.
Seria aquilo a felicidade?

Nos rostos não existia carne, era luz, somente luz que irradiava e tornava os rostos quase que transparentes. As vidraças exalavam calor e no vão da escada já não parecia estar tanto frio.
O filho aproximou-se da janela. Um sorriso imenso irradiava-lhe o rosto e nenhuma sombra pairava sobre aquele olhar... até atingir aquele vão de escada ali em frente.
Aquele mesmo vão de escada onde tinha passado a consoada anterior...
aquele mesmo vão de escada onde se tinha tentado aquecer com um irmão de rua, sem êxito... aquele mesmo vão, onde havia um ano um corpo gelado e inerte tinha parado de roncar e onde ele se aninhara ainda mais em busca de calor, até ao ultimo suspiro do outro...

O filho deixou de sorrir... a mãe olhou-o e sentiu a dor, sentiu-a como se fosse dela e nela... cortou-lhe a respiração e viu o espírito do filho viajar para longe dali, para a rua, para há um ano atrás.
Foi buscar os casacos... a mãe foi buscar as luvas, os gorros e os casacos... Colocou-o nas costas do filho e fez sinal ao pai para que a seguisse nos movimentos, nos sentimentos...

Uma lágrima pairava no rosto lívido do filho e a luz que antes ali transbordara, escondia-se por trás da sombra das recordações. A mãe vestiu o filho, como todas as mães vestem os seus filhos, com amor, com ternura e uma infinita paciência. Nos olhos e no rosto o amor imenso que aquece uma casa e que há dois mil e oito anos aqueceu uma criança acabada de nascer deitada em palhas.
A mãe abriu a porta, levando consigo uma trouxa que nem pai nem filho conseguiam identificar.

Por baixo do vão de escada, dois corpos rígidos tremiam, buscando conforto um no outro, estômagos roncando de infelicidade.
Debaixo do braço da mãe a trouxa transformou-se como que por milagre e de dentro de um saco, saíram duas mantas, dois pares de pantufas e gorros e luvas e calças e camisolas e o que parecia ser uma garrafa de chá quente.
Uma luz resplandecia daquela mãe. Não haviam palavras ali, só gestos e um sorriso que fazia transbordar a taça da felicidade.
A família voltou para casa... maior desta vez...

Havia 2008 anos, uma pequena família tinha feito nascer uma boa nova, estrelas e reis tinham viajado para dar as alvíssaras ao portador da nova era e numa gruta fria, aquecida pelos corpos de uma mãe, de um pai, de uma vaca e um burro, uma criança sorria de felicidade... a mãe e o pai sorriam com ela... prometendo uns aos outros que seriam sempre uns para os outros a salvação dos piores dias, a alegria dos melhores...

Na casa tudo reluzia agora.
De três passaram a cinco e de sorrisos passaram a gargalhadas de luz.
No vão de escada procuravam agora conforto mais dois corpos esquecidos da realidade...

P.S. - Perdoem este meu conto. Não sou pessoa muito dada a contos de Natal. Tenho festas verdadeiramente felizes, tenho uma família que adoro e que me ama e tenho duas luzes que me alumiam os dias e as noites.
Mas este Natal, sobretudo este, sinto que haverão muitas famílias a precisar de um ombro amigo, de um pedaço de calor alheio para as confortar e isso deixa-me com um sentimento misto de tristeza e alegria.
Afinal, o que é o Natal, senão a alegria da partilha?

Carta ao Pai Natal

Querido Pai Natal,

Espero que estejas bem e que esta carta te encontre com saúde e disposição para atender um pedido muito especial. Este ano queria que me oferecesses uma fábrica de calçado. Não precisa de ser uma muito conceituada e responsável pela produção de sapatos de designers de renome. Quero, apenas, que esteja numa boa fase de laboração.

Sabes, Pai Natal, há um homem, num país africano, que sujeita o seu povo às mais terríveis barbáries, que o mata de fome e de cólera mas que, paradoxalmente, vive na maior das opulências. O país em questão, disse-me o meu pai, era um dos mais ricos, senão mesmo o mais rico, do continente africano e o seu povo vivia com uma qualidade de vida muito boa. Até que, um dia, esse homem, que o meu pai apelida de Monstro, subiu ao poder.

Isso já aconteceu há muitos anos, mas ele nunca mais deixou o poder e, aos poucos, qual parasita, foi aniquilando esse país e a sua riqueza, foi sugando a energia e a vida do seu povo. Neste momento, Pai Natal, o país, que se chama Zimbabwe e o seu povo estão agonizantes.

Mas, esse Monstro, de seu nome Mugabe, continua cego ao sofrimento que aí se vive e diz, sem qualquer vergonha, "o Zimbabwe pertence-me a mim" e reitera que "nunca irão ter a minha rendição!".
Por isso, Pai Natal, eu lembrei-me que se tivesse muitos, muitos, muitos sapatos podia atirar-lhos e fazê-lo afundar-se neles. Assim, podia salvar o povo do Zimbabwe e tu serias o responsável maior pela salvação desse país.
Quem sabe, assim, o Zimbabwe poderia voltar a ser o que era?

Agora, Pai Natal, espero que não me desiludas e cumpras este meu desejo natalício.
Beijinhos.

P.S: Estava aqui a pensar... Se calhar, é melhor trazeres boa pontaria junto com a tal fábrica de sapatos. No outro dia, vi um senhor a atirar sapatos a outro (o meu pai disse que era um personagem de banda desenhada. Acho que ele lhe chamou Pateta, mas não tenho a certeza...) e ele, em duas tentativas, não acertou uma única vez e eu quero muito acertar no Mugabe, está bem?
Obrigada, Pai Natal!

Não, obrigado

O Conselho da Shura Mujahedine, organização que reúne vários grupos iraquianos, incluindo o ramo local da al-Qaeda, num comunicado colocado na Internet, ameaça: "O adorador da cruz (Bento XVI) e o Ocidente serão derrotados como acontece no Iraque, Afeganistão e Tchechénia. Vamos quebrar a cruz e derramar o vinho ... Alá permita que os degolemos e faça dos seus descendentes e do seu dinheiro a recompensa dos mujahedines"

Sinto-me directamente ameaçado porque pertenço à Civilização Ocidental, com todos os seus defeitos e virtudes e quero continuar a pertencer a ela e a viver à minha maneira:

- quero continuar a comer umas febras de porco com batatas fritas, acompanhadas duma, várias, imperiais no Verão, ou de um bom tinto alentejano no Inverno, assim como quero continuar a beber os meus whiskies;
- quero continuar a ir para a praia e a ver todo aquele desfile de garotas em bikini, ou monokini;
- não estou interessado em deixar crescer a barba, nem em colocar-me cinco vezes por dia de cu para o ar. E sabem porque eles deixam crescer a barba? Não, não é por questões políticas como fazem muitos dos nossos “parolos” esquerdistas-oportunistas de fresca data, é para combaterem a homossexualidade masculina;
- quero continuar a passear por esta linda Lisboa e a admirar os belos seios que as mulheres generosamente expõem, quando sabem que o podem fazer, porque o que é bom é para se ver. Não quero ver esta cidade povoada de "avejões", cobertos de negro da cabeça aos pés;
- quero gozar livremente a minha vida, sem quaisquer peias, ou restrições e desde que o meu comportamento não colida com os direitos, ou com os sentimentos dos outros.

Como escreveu Fernando Madrinha, num seu Editorial do "Courrier Internacional", de que já não me lembro a data, "a arrogância desses líderes (muçulmanos) que mobilizam a rua, como que pretendendo impor a lei da mordaça ao Ocidente e ao próprio Papa*, é obviamente inaceitável".
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* Embora o que ele disse, ou deixou de dizer, não me interesse minimamente, admiro a sua coragem e frontalidade, quando vejo responsáveis políticos, e religiosos, que deviam discordar da sanha assassina dos terroristas islâmicos, todos de calças na mão, sem condenarem o terrorismo praticado em nome do Profeta e permitindo assim que chegue até nós ocidentais uma interpretação errada do Corão.