O País Desafortunado

Localizado no Tecto do Mundo, temos do Tibete a noção de ser um país ao qual a auto-determinação foi sonegada pelo monstro vermelho. Olhamo-lo com piedade. Certamente nos lembramos do inolvidável “Sete Anos no Tibete” sobre a vida do montanhista austríaco Heinrich Harrer que presenciou a invasão chinesa e que nos fez o favor de apresentar um país recôndito com uma tradição milenar, avesso à beligerância, uma espécie de utopia terrena num mundo que tinha sido avassalado recentemente por uma catastrófica Guerra (naturalmente que temos de contextualizar a obra de Harrer e interpretá-la à luz histórica). Pensamos no Tibete e assoma-nos à mente o pacifismo do Dalai Lama e a espiritualidade de Lhasa. Olhamos as notícias e não evitamos o choque e a comiseração. O choque pela brutalidade ditatorial de um Estado que, sendo uma potência militar e económica, faz sentir o seu peso desmedido sobre uma população indefesa. E a comiseração por um povo que sofre em silêncio, na impotência que lhe confere esse mesmo pacifismo que cultua com tanta devoção.

Despertados para o problema, porque ultimamente a carga chinesa tem sido mais visivelmente repressiva, embarcamos em gritos fáceis que apelam a subscrições internacionais, boicotes aos Jogos Olímpicos e todas as coisas que possam minimizar o mal-estar das nossas consciências. Lamento dizer, mas é uma pena que só nos demos conta da gravidade de certos problemas quando eles ultrapassaram o limiar da “gravidade”. É difícil admitir que, como pronunciava Heine há mais de um século, a única coisa que a História nos ensina é que não aprendemos nada com a História.

Onde estava a opinião pública quando, há vinte anos, se tornou público no Ocidente que o governo chinês procedia a políticas de esterilização das mulheres tibetanas camuflando, assim, o genocídio de um povo? Onde estava a comunidade internacional aquando dos massacres de Chamdo? Aliás, onde é que alguma vez o Tibete foi um país?

Admiramo-nos todos porque é que as Nações Unidas, a União Europeia, os Estados Unidos não tomam uma posição de força a favor dos direitos do povo tibetano. Como podem se o Tibete sempre foi um território incluso noutro? É verdade que auto-proclamou a sua independência face à China em 1911, mas essa independência nunca foi reconhecida oficialmente por nenhuma nação. Por isso, quando, em 1950, o exército chinês marchou sobre o Tibete estava meramente a reassumir o poder. Nenhum país se imiscuiu então dentro dos assuntos internos da República Popular da China. E nenhum país o está a querer fazer agora.

O Tibete não é Timor, colónia tomada por um país estrangeiro que não a metrópole. O Tibete não é o Zimbabué com uma forte presença europeia, membro proscrito da Commonwealth. O Tibete nem sequer é um Kosovo que tem uma forte história independentista. O Tibete, como se percebe, está realmente a precisar de ajuda. O povo tibetano está realmente a ser dizimado. O Tibete tem graves constrangimentos que o impedem de falar por si próprio em sede internacional.

A ver se desta vez, com esta emergente comunidade blogger, com as ferramentas do YouTube, as milhentas estações de notícias e as facilidades da comunicação noticiosa digital não deixamos cair no esquecimento o martirizado Tibete até sermos novamente despertados por acontecimentos terríveis. Não basta assinarmos petições; pedir boicote dos Jogos Olímpicos é, a meu ver, ridículo (ainda que apetecível), é preciso falarmos e tornarmos visível a corrente de debate.

Que o Tibete possa (ainda) ser um país!

13 comentarios:

quintarantino disse...

Minha querida amiga, sendo cínico como são os governantes do mundo direi que o Tibete é uma maçada; sendo preguiçoso e indolente como os nossos concidadãos direi que o Tibete é uma chatice ... fica longe, é frio e tem uns bichos estranhos chamados iaques ... não, esquece, desconsidera os iaques que a esmagadora maioria do povo sabe lá o que isso é!

antonio disse...

Estou de acordo com os traços gerais deste texto, mas alerto que se saiu à rua, não com o pacifismo do Dalai Lama e a espiritualidade de Lhasa, mas saqueando as lojas detidas pelos chineses.

Tal não desculpa a repressão e a resposta desmedida das autoridades chinesas, nem ofusca o direito do povo do Tibete à sua autodeterminação, mas...

Compadre Alentejano disse...

Muita gente está de acordo com o Quintarantino quando diz que o Tibete é uma maçada. Até o PCP diz que não temos nada em nos metermos nos assuntos internos da China.Este PC é impagável, para eles o céu, para os outros o inferno...
Há muito que venho debatendo o problema do Tibete no meu blogue, o Papa Açordas, e, se não me levam a mal, convido-vos a assinar a petição que lá está, a pedir um Tibete livre.
Um abraço
Compadre Alentejano

António de Almeida disse...

Nem o próprio Dalai Lama, reclama verdadeiramente a independência, nem antes da invasão chinesa, o Tibete era verdadeiramente um país, tal como os concebemos. Mas isso não lhes retira o direito á autodeterminação, e julgo que a China até poderá vir a conceder no futuro uma ampla autonomia ao Tibete. O problema são outros territórios, a Manchúria por exemplo, e Pequim não quer abrir a caixa de pandora. Mas a comunidade internacional, não pode, e não deve, deixar morrer o Tibete, enquanto identidade única.

quintarantino disse...

Eu não quero ser mal interpretado com o que escrevi lá em cima, só estava a glosar o que um escriba cínico poderia dizer ou escrever.

Por acaso, sou favorável à auto determinação (seja para uma autonomia alargada ou para a independência total) do Tibete mas deve ser porque sou um néscio embriagado com as lendas de Samsala e o fascínio que o tecto do Mundo exerce sobre qualquer um. Sou e ponto final.
Não me perguntem porquê que não me apetece.

Tenho uma dúvida e se alguém puder agradeço esclarecimento ... em 1912o Tibete não alcançou, ainda que temporariamente, a independência?

A petição de que o COMPADRE ALENTEJANO fala já leva a minha assinatura há muito tempo.

Blondewithaphd disse...

Quinn,
O Tibete declarou, de facto, independência unilateralmente, mas esta nunca foi reconhecida por nenhum país, sublinho nenhum país, e muito menos pela China. O que se passou foi que até 1950, por outros problemas internos, a China andou muito ocupada para se imiscuir nos assuntos tibetanos e Potala (a sede governativa tibetana) e o 13º Dalai Lama (o anterior a este) tiveram relativa autonomia. Em 1949/50 as coisas mudaram e o exército chinês invadiu o Tibete para repor o anterior status quo.
O Tibete nunca foi independente. Aliás, A Grã-Bretanha chegou a assinar tratados com a China protegendo o protectorado contra a influência Russa. Ou seja, a Grã-Bretanha comprometia-se a não ocupar colonialmente o Tibete (muito apetecível em termos estratégicos) se a China declarasse que, como potência de ocupação, não deixaria a Rússia exercer influência na região. O Tibete funcionaria, assim, como um baluarte sino-ocidental contra eventuais ameaças russas.

Sniqper ® disse...

O meu coração sangra sempre com a violência, as lágrimas correm pela minha face perante as injustiças e a minha revolta cresce perante a vilanagem dos fortes contra os fracos, mas...

Que Portugal possa (ainda) ser um país!

Essa é a minha prioridade, a meinha preocupação, o resto é o resto e tem a importância que tem, nada mais.

jo ra tone disse...

Li e reli muito recentemente o livro "sete anos no tibete"
Gostei e cheguei à conclusão que o testemunho nele apresentado, (se não foi muito improvisado), Vivia-se lá melhor do que cá .
Bom fim de semana

Tiago R. Cardoso disse...

Embora o Dalai Lama reivindique, não uma independência, mas sim uma autonomia alargada, aquela luta de um povo deve ser apoiada.

Mais do que andarem por ai a tentar apagar a tocha olímpica, o que seria de se exigir é que os mesmo que se definem como senhores defensores dos direitos humanos, tivessem neste caso o mesmo que tiveram em relação a outros casos.

O grande problema é que neste caso é a China, muitos olham para os direitos humanos pela carteira.

tulipa disse...

Com alguns erros de percurso, sempre lutei por aquilo que julguei justo.

Desfaleci em alguns momentos, chorei de raiva por causa de injustiças, sofri por não me calar quando isso era mais fácil.

Sou feliz por ser quem sou, continuo a querer aquilo que acho que mereço.
Sei que ainda vou errar mais algumas vezes, mas procurarei corrigir o rumo, tentando ser como sou, em busca dum mundo melhor.

Beijo.

NuNo_R disse...

O mal do Tibet é não ter petroleo ou alguma fonte de riqueza imensa que os outros paises queiram explorar.
A sua riqueza está na cultura e história desse país.
Mas o que isso interessa á grande maioria dos ocidentais?!
Nada.
E os poucos que se interessam não chegam para publicitar os atropelos aos direitos humanos que por lá são feitos.

Em pleno sec XXI ainda se anexam paises sem que nada ou ninguém o impeça.
Nem o Bush, que se intitula como protector do mundo, se preocupa com esta causa... :(


abr...prof...

Manuel Rocha disse...

Cara Blonde,

As questões dos nacionalismos e dos jogos de interesses que a eles se colam como lapas, têm a meu ver um problema que Adriano Moreira sintetiza numa expressão que me parece feliz quando lhes chama de "estados exiguos".
A falta de dimensão para se ser estado afirmativo da sua soberania, implica por norma jogos de alianças transitórias que mais não fazem que estar preocupadas com interesses conjunturais.
No limite, aduzam-se boas razões para preferir que Timor seja um protectorado da Austrália em vez de da Indonésia. Ou que o Tibete está melhor à sombra de ( quem ?!)do que da China.
Claro que não estou aqui a defender os interesses da China. A questão para mim situa-se a outro nivel: o da viabilidade independente das muitas legitimas vontades autonómicas. Porque sem independencia económica a independencia politica tem-se revelado por sistema mero sonho utópico. Concorda ?
;)

Carol disse...

Como disse o Quin, para muitos o Tibete é uma maçada. Ninguém quer saber dos monges budistas e do povo tibetano, simplesmente porque não há riqueza material a poder ser explorada.
Gostaria que alguém me explicasse porque se aceita e aplaude a situação do Kosovo, mas ninguém se quer meter no assunto do Tibete?! Qual a diferença entre ambos? Sinceramente, irrita-me a hipocrisia dos líderes mundiais!