Notas Emprestadas

Mantendo a tradição de cooperação e interacção entre o Notas Soltas e outros autores e blogues, avançamos com mais um autor.
De uma enorme capacidade literária, para muitos complexo e fechado, para outros um enorme escritor, para nós é muito mais que isso, um amigo e um enorme companheiro.
Apesar da extenso, Joshua, escreveu um texto que merece ser lido por inteiro.


O INDIVÍDUO E ESTA LEGISLATURA: UMA LIÇÃO BUDISTA PRONTA A COMER
(Da teoria à Prática)

Não vou escrever sobre nada fora de mim. Vou escrever, para inovar, sobre mim mesmo, sobre humilhação, conformação, embrulhando tudo no polipropileno do sarcasmo. Pode ser celofane. Pode ser qualquer coisa metalizada de envolver sobras de comida, comestíveis mais tarde.

Para que todas as Reformas Estruturais triunfem em mim e todos os juízes de mim tenham razão, terei que pisotear o meu Orgulho. O que fiz e o que fui foi errado, à luz das Reformas Estruturais aparentemente em decurso nesta legislatura. Se fui feliz, se andei descontraído e tranquilo a vender as minhas aulas tão tenso, mais esforçado do que prometia a força humana, errei clamorosamente. Se fiz amigos nos alunos e estes me preferiam para desabafar de si; se me manipularam Pais Novos-Ricos e Colegas Novos-Ricos em seu proveito de todas as vezes, e eu permissivamente deixei, tendo em conta o grande desamparo de que contra Pais Novos-Ricos, nada!, tudo isso não conta no grande processo-calvário de Fazer de Este País, «rapidamente e em força», um dos mais desenvolvidos do Mundo, mediante reformas radicais de tudo e de todos, reprovando os percursos antigos.

Todo o processo da minha humilhação obrigatória e vital consiste em eu, Joshua, me retirar dos meus próprios territórios para que o Zen-Vazio os ocupe; em deixar de ser «eu» em mim próprio para que o Vazio-Nirvana tome o comando e o governo dos meus mundos a fim de que não seja eu quem vive, mas que seja ele, Vazio, a viver e a prevalecer sobre os meus interesses; consiste em morrer, em esvaziar-me daquelas facetas tipicamente negativas da minha personalidade para que sejam substituídas pelos impulsos, pelas atitudes e pela conduta geral do Vazio e se tornem vazios. Assim, limpo de mim, o Governo português me declarará Apto para a Nova Vida Nacional de um País de Ponta, no espaço exíguo de uma legislatura. Esta, em decurso.

Trata-se, pois, da travessia de um rio. Nunca chegarei à outra margem. Nunca serei humilde e paciente como o Vazio-Zen, mas posso fazer actos de paciência e de humildade como o Nirvana-Oco, embora por entre constantes recaídas. A minha meta é, terá obrigatoriamente de ser!, Agradar ao Governo e ao seu novo Paradigma Darwinesco dos Mais Fortes e dos Mais Aptos, mesmo que caprinamente Aptos e Fortes.

A minha humilhação deverá ser uma espécie de Páscoa católica ou Judia, um eterno estar a passar de uma margem para a outra, de um Egipto para uma Palestina Virgem, num processo nunca acabado de me ir despojando das roupagens do homem velho estruturado de delírios de grandeza, hábitos de tranquilidade e sossego, enquanto me vou revestindo das roupagens de paciência fiscal, mansidão laboral e humildade dócil a tudo o que seja Despacho, que são as vestes do homem novo, segundo o Vazio-Zen e segundo este Governo e o seu novo, indiscutível, statu quo geral de aborto e encerramentos urgentes facilitados. Tenho de seguir o mesmo caminho e fazer o mesmo comigo: abortar-me. Encerrar-me. Posso começar pela língua.

E isto lentamente. Não terei ilusões, porque as ilusões acabam sempre em desilusões. Uma das palavras mais enganadoras que a minha boca pronuncia é a palavra total. Total? Não existe nada total: não existe reconversão total, reforma política total, maturidade total, equilíbrio total, governo total... Não existe, excepto para esta legislatura Sócrates, com o que me deverei conformar.

A vida inteira é um processo, um caminhar por entre muitos retrocessos, contramarchas, quedas e recaídas, sem que por isso me assuste. As quedas não têm importância. O importante é que me levante depois de cada queda e volte a partir. Por outro lado, e para este Exótico Governo, e de acordo com o novo paradigma mundial, e nomeadamente!!!, a vida inteira não é, nomeadamente!!!, um processo, não é um caminhar, nomeadamente!!!, por entre muitos retrocessos, contramarchas, quedas e recaídas, sem que por isso não me assuste grandemente em perder o emprego e em ser punido e em ser perseguido por falhar. As quedas têm toda a importância curricular. O importante é que me mantenha no chão depois de cada queda e não volte a partir, pensando ilusoriamente que o meu lugar de trabalho é estável e verdadeiramente meu alguma vez, como o do meu pai o foi e é há 55 anos. Isso acabou. Chegado aqui, é bom que fique e não parta mais.

Nunca se viu um bebé que, ao chegar a altura de começar a andar, se solte dos braços da mãe e se lance a correr como um cordeirinho. A mãe, depois de milhares de exercícios que lhe faz para lhe dar firmeza às pernas, solta-o; e o bebé dá um passo e cai dez vezes. Depois de muito tempo, os passos e as quedas equilibram-se. E depois de mais algum tempo, agora sim, agora o bebé é um espectáculo de vitalidade inesgotável. Tudo é assim na vida; lento, evolutivo e com retrocessos. Tudo, não. Para este Governo, tudo é imediato, de choque, sem hesitações, sem negociações. Pegar ou largar. Temos, por isso mesmo, de aprender as lições elementares de esta elementar humilhação ministrada sabiamente ao longo de esta legislatura inaudita, inédita e irrepetível.

Hoje mesmo, a Irene, minha tia, mergulhada nos abismos da temperança interior do Zen-Vazio, apesar de mal-amada e espancada toda a vida pelo meu tio-que-não-pode-beber-whisky, lá conseguiu perdoar uma grave calúnia duma vizinha, obtendo, como fruto, um profundo alívio de coração. Parecia que era definitivo, mas não: passam três semanas e de novo as chamas do rancor se acendem e incendeiam-lhe o coração, insultando os Ministros da Justiça e da Saúde, tinha as suas razões!, com quantas pedras pôde e só um bocadinho a tal vizinha. Que pena! Sentia-se tão bem com aquele alívio e aquela paz, e agora de novo o rancor? Eu disse-lhe: «Tia, não se assuste; é normal; somos assim. Tem que dar o perdão outra vez à tal vizinha e compreender os altos desíngios abortivos e encerradores em cera de um dos Ministros». É que só depois de muitas quedas e de muitos actos de perdão curar-se-ão as feridas; porque uma ferida profunda precisa de muitas sessões de tratamento. É preciso ter uma paciência infinita, primeiro consigo próprio, e conhecer a completa trama da natureza humana e aceitá-la com paz! Isto, se não se viver em Portugal durante a presente legislatura, o que não é fácil e é por isso mesmo urgente aprender, aprendendo esta minha lição, loção textual, de humilhação simplificada búdica.

Ontem mesmo, o Afonso, meu primo afastado, estava devorado pela angústia de desempregado de longa duração. Do fundo dos seus abismos de Inútil-à-Nova-Sociedade-Nacional-dos-Excluídos-Mas-Conformados-com-Isso, fez um acto incondicional de abandono nas mãos do Vazio-Nirvana, tal como o Ministro Pinho costuma fazer e ― ó prodígio! ― sentiu-se automaticamente mergulhado num mar de paz onde nenhuma maledicência e exclusão o poderia ferir. Exactamente sete dias depois, e no momento mais vital, caiu de novo em plena angústia desempregada e de Inútil-à-Nova-Sociedade-Nacional-dos-Excluídos-Mas-Conformados-com-Isso, aparentemente sem motivo nenhum; e não era uma personalidade volúvel, mas normal, tendo em conta o seu estado lastimável de auto-estima. É preciso ter uma compreensão inesgotável consigo mesmo e deixar-se assimilar pelas directrizes Reformadoras de este Governo que, rapidamente e em força, nos está a salvar de nós mesmo, centenariamente decadentes e resistentes à Mudança para Pior ou para Pior. Entristecer-se? Não serve de nada. Pacientemente há que voltar a fazer actos de abandono à Política que se faz.

Ainda sob os efeitos da humilhação-Zen da manhã, o André teve um magnífico gesto de humildade, permanecendo em silêncio e paz diante da indigna grosseria de um familiar e de as notícias deprimentes duma atitude oportunística-Nokia, na Alemanha, a despudorada. E na tarde de esse mesmo dia, por uma palavrita de desconsideração de outro familiar e outra notícia semelhante em Portugal, o mesmo André reagiu com uma espantosa e desproporcionada explosão. Somos assim. Não existe nada que seja total. Envergonhar-se de si mesmo? É inútil. O caminho da humilhação é marcado por recaídas e fracassos. Entristecer-se por isto? De modo nenhum. Simplesmente aceitar com paz, e à partida, que a realidade é assim e, depois de cada recaída, partir de novo nas asas da esperança, mas de preferência na Madeira, onde um tirano bem humorado, «grotesco», nas palavras processadas e sem apoio do Sindicato dos Jornalistas, de Baptista-Bastos, nos brindará com uma solução laboral directa, se, implorativos, lha pedirmos muito, garante de todas as reeleições fáceis.

O Governo Autónomo da Madeira não tem lema, que se saiba, mas esta legislatura PSsssocratina teve como claro lema: «O Governo (o Ministério da Educação, vá!, que é o mesmo.) não é uma agência de Emprego. É está certo. E é verdade. Um Governo, para ser bom, tem, pelo contrário, de ser um Pivot de Desemprego, desde que por uma boa macro-causa que agrade a todos e a todos deixe orgulhosos no panorama mundial moderno onde a cretinice alastra como um petróleo à Prestige.

Quem não compreender isto, necessita de este meu banho gelado de humilhação e bem pode começar a relê-lo.

Autor - Joshua, PALAVROSSAVRVS REX

6 comentarios:

C Valente disse...

Saudações amigas e bom domingo

antonio disse...

Meu caro Josh-governo-dependente, pisotear o teu Orgulho? Isso é que era bom! O amargo de boca que sentes, não é só humilhação, é a tua incapacidade para engolires o teu orgulho. Digo-te: escreve sobre a tua visão do mundo e tu brindas-me com um virtuosismo escarro de ti próprio! Isso interessa-nos?

Rasga horizontes, explora a tua dor nas Manuelas-toxico-dependentes e noutras criaturas que tu tão bem descreves. Dá-nos esse mundo sufocante de moribundos que tu tão bem sabes construir. Torna-te miniscente, morre. Só assim poderás cumprir a promessa do grão de mostarda. Cria coragem e responde aos desafios que te fazem. Esquece-te de ti próprio, da tua ministra, do teu infortúnio, cresce! Existe mundo para além do muro, atrás do qual te acocoras!

Assim, enches-me de dor.

Fa menor disse...

Josh,

Peço-te desculpa... mas só me ocorre dizer-te que...

Não faças disso a tua vida!

Votos de um bom domingo e de uma boa semana

joshua disse...

Obrigado ao António, à Fa menor e a todos os meus amigos do Notas.

PALAVROSSAVRVS REX

quintarantino disse...

Meu caro amigo, ânimo e que tal como o António te disse, te lembres que estás envolto numa alegoria, como a da caverna de Platão, e tudo o que vislumbras é imperfeito embora te possa parecer perfeito, mas que se ousares sair serás um homem novo!

Tiago R Cardoso disse...

O que dizer mais do que aquilo que tantas vezes já conversamos...

Força Jashua, força.