No dia dos cravos fala-se de ... modernaços!

Quintarantino - 25.04.2008

Quando mais uma vez o calendário assinala o dia 25 de Abril, interrogo-me sobre o que realmente move alguns que hoje apregoam que afinal Salazar não era mau diabo, que temos Estado a mais na sociedade civil, que é preciso flexibilizar a legislação laboral, baixar os impostos, blá, blá, blá, blá …

Salazar teve os seus méritos e os seus defeitos e penso que estes certamente ofuscam aqueles; os seus arautos costumam apontar o ter endireitado as Finanças Públicas como obra de génio.
Lembro que Cavaco também o fez e Teixeira dos Santos por lá anda!
Queiram ou não.

Há quem também aponte a estabilidade face ao caos que era a I República, mas isso conseguiu-se com os esbirros da então DGE, depois PIDE/DGS e os bufos em cada esquina!
A verdade é que basta ver a excelente série que a RTP passa aos domingos à noite (“Conta-me como foi”) para rapidamente se perceber duas coisas … os portugueses não mudaram nada e aquilo era uma vil e apagada tristeza!

Depois temos para aí uns modernaços que clamam contra o 25 de Abril e contra o socialismo (limpam convenientemente os anos do PSD no Governo, pois a eles só lhes dá jeito ganir com o PS no poder e balir com os amigos no poder que é quando mamam!) porque temos Estado a mais na sociedade.
Pois, mas isso também já havia com Salazar e os seus famosos planos e campanhas do trigo, por exemplo.
Qualquer aluno mediano de História e Economia sabe disto, não é preciso tirar um mestrado!

Eu por acaso, mas mesmo só por acaso, acho um piadão do caraças aos tais modernaços para quem tudo o que não seja Monarquia, Estado Novo e PSD no poleiro é sinónimo de asneira!
Esquecem os tais modernaços que na Monarquia, Estado Novo e PSD existiram e pulularam tantos trastes como em qualquer outro sítio.
Mas os tais "modernações" têm um “chip” selectivo que lhes permite limpar da memória o que não lhes convém.

Vamos agora às constantes exigências de flexibilização no mundo laboral.
Eu concedo que existem anacronismos e mecanismos que podem e devem ser revistos, agora virem-me com a treta que o que é preciso é poder ter ainda mais gente com contrato a prazo, trabalho temporário e a recibo verde para poderem progredir e competir só por misericórdia ou então pensam que quem usa orelhas de burro somos nós e não eles.

Provo o que aqui digo com o pensamento que uma nota de rodapé, cujo nome não importa, membro duma juventude partidária apresenta como paradigma dos tempos que correm: “Outra questão muito importante para a minha geração é a definição do salário mínimo. (…) vê no salário mínimo nada mais do que o estabelecimento de um preço mínimo naquele que deveria ser o normal funcionamento do mercado de trabalho.
Este preço mínimo tem dois efeitos muito claros no mercado de trabalho: impedir de trabalhar quem estiver disponível para trabalhar por valor inferior a esse preço; por outro lado impede de operar todas as empresas e serviços que não tenham a capacidade de remunerarem aquele montante.
Importa ter presente que receber um vencimento tem obrigatoriamente que significar que o trabalhador acrescenta valor à entidade que o remunera por um valor superior a esse vencimento.
Não nos assusta o tradicional argumento de que sem salário mínimo as empresas irão pagar ainda menos (…)”.

Notem o diletantismo e a lata!
Tenham vergonha. Portugal deve ser dos países da Europa onde mais contratos de trabalho a prazo existem e mesmo assim temos empresas cujos patrões não valem um carvalho, nem levam aquilo a lado nenhum!
Sabem que ainda temos patrões para quem pagar um salário de 400,00€ é um roubo de Igreja, mas que para estourarem 100.000,00€ num carro novo não têm puto problema?
Eu quero que se abardinem lá com os carros que compram, desde que não andem a roubar a Segurança Social e o Fisco!!!

Andam indignados alguns com as mais recentes propostas, mas é só porque mesmo assim ainda não conseguem fazer disto a Albânia ou a China!
Ou África …

Temos depois outros inteligentes que exigem o abaixamento da carga fiscal pois não conseguem competir mas, mais uma vez, devem pensar que somos burros.
Quer dizer, já assim é uma roubalheira do carago em matéria de IRC e IVA e querem pagar menos?
Mas se a maior parte não paga, estão preocupados com o quê?

Querem menos Estado?
Eu acho que sim.
Reforça-se a fiscalização, tornam-se as leis mais repressivas em determinado tipo de comportamento, falências fraudulentas é sinónimo de património confiscado e ossos a malharem na choldra; desviou verbas da Segurança Social dos trabalhadores mas está lá a mamar porque está de baixa, choldra …
Eu queria-vos ver, era a pedirem isto!

Eu queria ver os tais heróis do liberalismo a não quererem mais parcerias público privadas!
Eu queria ver os tais arautos da iniciativa privada a porem-se a milhas e irem para os EUA, por exemplo … ops, esqueci-me, são liberais mas é desde que haja uns subsídios comunitários para "mamar" e uns amigalhaços no poder para combinar umas negociatas!

É por isso que esses, se tivessem vergonha, estavam calados.
É que a eles tanto se lhes dá como se lhes deu que seja Salazar, Sócrates, Cavaco ou o carvalho no poder.
Mamam sempre, mas berram ainda mais alto não vá alguém desconfiar!
São uns heróis.

14 comentarios:

Sniqper ® disse...

Boa evolução do NOTAS, sem dúvida!
Um visual renovado, um monte de gente a falar uns com os outros e agora para condimentar vai de empregar uma bela de uma linguagem, lindo!
Quando será que por aqui se fala de todos os Partidos ou será que os que ficam na gaveta alimentam quem por aqui escreve?
Eu queria ver o que era da vossa vidinha se não fosse o 25 de Abril! Andavam todos a lamber as botas ao mesmo, o Tal do gostinho especial, lembram-se?
Agora é mais complicado de facto, são muitas as cores e muitos os favores, mas quem vergonha não usa continua, certo?
Continuem que estão no caminho certo...

quintarantino disse...

Nem tenha dúvidas!
Nem tenha dúvidas!

joshua disse...

Mas olha que mamando todos alternadamente e sem excepção nessa larga diacronia que elencaste, me parece que o PS tem mais encanto nessa arte, succiona muito melhor a Teta Estatal, mal a tenha disponível. Não terás também o teu chip curto-circuitado? Porque militar num partido (cada vez sou mais frígido perante eles!) é, em todos os casos, ter simplesmente clubite e por isso ver sempre pela metade de um quarto o quarto que nos interessa.

Pelo Pub posso avaliar como é medíocre e vil o pequeno empresário português, o tal que se escandaliza com o ter de pagar 400 euros a um trabalhador e estoura 100.000 num automóvel. O sentido da solidariedade e da justiça não desabrochou aqui como noutros países, onde o sangue correu por menores aleivosias e correu porque se lutou por dignidade e não sucedâneos dela.

Se se liberalizassem as remunerações em Portugal, haveria de ser engraçado: em face das tentações reducionistas, fora de um justo salário, dar-se-ia o colapso de muitas empresas porque é impossível produzir sem estímulos adequados, embora em Portugal haja o perfeito milagre de se suportarem salários de merda e continuar a rir e a cantar que podia ser pior. Nos Estados Unidos há competição entre empregadores que assediam os melhores e antecipam-se à concorrência. O mercado de trabalho aqui, pelo contrário de demasiado passivo, inerte e é por isso que os mais brilhantes olham para mais longe, tão longe, tão longe, que esse longe fica fora do País o mais das vezez.

Os alemães e ingleses não são feitos desta fraca pasta por isso emigramos para lá e somos mais de um milhão nos Estados Unidos, onde normalmente trabalhar (re)compensa quem trabalha!

Finalmente, a propósito de um certo comentário cheio de Cínico mas sem arte para ser Sarcástico: vozes de burro não sniqperam ao Céu, mas balem em vão enquanto ganem e zurram.

PALAVROSSAVRVS REX

antonio disse...

Mesmo de partidda, uma nota: eis o que falta cumprir de Abril (ou de Portugal): uma classe empresarial digna da europa. Mas os que temos são os únicos que se atrevem e isso diz muito do povo que somos!

Despedi-me com uma postagem em livro.

Maria P. disse...

Não fosse o 25 de Abril e não seria possível este blogue, e outros claro...

Beijinho*

Compadre Alentejano disse...

Como a Maria p.diz, se não fosse o 25 de Abril este e outros blogs mais...abertos...não seriam possíveis, ao contrário da opinião de algumas pessoas...
Ainda bem que aproveitaram a semana do 25 de Abril para mudar a "cara" ao Notas...
Um abraço e viva o 25/Abril
Compadre Alentejano

Tiago R Cardoso disse...

Gostaria de inicio mostrar a minha satisfação pelo dinamismo que foi imprimido ao Notas Soltas, após cinco dias, já tivemos trocas de ideias, debates, falamos de tudo e de todos, não esquecemos ninguém, discordamos e crescemos.

Excelente o teu texto, bem colocadas as questões, muito bem visto a classe empresarial que temos, principalmente o pequeno empresário, não a maioria, mas uma boa parte.

Continuamos a ter o empresário de vão de escada, com empresas do mesmo tipo, paga-se pouco e manda-se fazer pouco barulho, foge-se aos deveres fiscais e esbanja-se o dinheiro em grande luxos.

Faz-me lembrar o meu antigo empregador, não vai haver aumentos que isto está difícil, passado uns dias, uma viatura de 20 000 contos, ainda não tínhamos o euro.

A minha discordância vai na colocação do PSD naquela frase "Monarquia, Estado Novo e PSD", no mínimo exagerastes.

Que não gostes do partido, evidentemente que se aceita mas a colocação ali entre aquilo é que não está nada bem.

quintarantino disse...

TIAGO uma breve e necessária explicação.

Não tenho nada contra o PSD, entendo até que faz falta no nosso espectro partidário um PSD forte.

Quando fiz aquela elencagem é porque conheço linhas de pensamento que seguem o seguinte raciocínio: a 1ª República era um caos e na Monarqquia tudo era excelente; no Estado Novo o que de negativo existia era ofuscado pelo que de positivo existiu; só andamos para a frente com o PSD no Governo ... mais coisa, menos coisa!

Eu, pelo contrário, consigo vislumbrar, nos tempos desta República coisas boas e más nos governos que tivemos fossem eles do PSD ou do PCP!
São modos de ver, admito.

Já agora, alguém me pode dizer que tem a linguagem aqui usada assim de tão mau?
É que anda por aí um moralista ...

Sniqper ® disse...

Já agora, alguém me pode dizer que tem a linguagem aqui usada assim de tão mau?
É que anda por aí um moralista ...


Com que facilidade as pessoas mostram a verdadeira face, ou seja para não se fazer de desentendido, eu explico para quem não leu o texto que estava online na hora que o comentei... Publique o original que na altura nem autor visível tinha, simples.

Quanto ao resto quero que passem muito bem, e para ajudar agradeço que retirem o meu link do vosso blogue, o nome dele é Kolmi e não Carpe Diem, porque de facto nem comentar nem pertencer a este clube privado fazem parte das minhas opções futuras.

bluegift disse...

Chiça... este saiu-te bem do fundo das entranhas!
Resumindo e concluindo: o país transborda de panhonhas e oportunistas. Completamente de acordo. E como é que resolvemos este estado generalizado do "encosta aí"?
É por isso que me parece que este estado "Sócrates x Cavaco", mesmo cheio de lacunas, é o que de melhorzinho já existiu neste país desde o sec. XIX! Santa miséria!

quintarantino disse...

SNIQPER estava a ver que nunca mais desamparava a loja.

Andar pela "net" a apregoar o que verdadeiramente não somos é muito bonito, não é?

Osvaldo Lucas disse...

Se o ordenado mínimo é de 400 euros, porque é que o ordenado médio per capita é de +- 800 euros?

quintarantino disse...

OSVALDO LUCAS é fácil, você, no mínimo, tem de ganhar 1.200,00€ por mês!

Essa não cola!

Sandra Fonseca disse...

Gostei desse espaço democrático de opiniões e noticías. Opiniões diversas é que originam novos caminhos. Parabéns pela iniciativa.
Orgulhosa da participação da amiga Denise BC, sempre coerente e antenada.
Um abraço,
Sandra.