Mais palpites

Agora é moda escrever sobre violência nas escolas, violência/delinquência juvenil. Enfim, os adultos estão a chegar à conclusão de que há uma casta perigosa nos escalões etários mais baixos. Adolescentes que atemorizam escolas e os próprios pares. Este blogue tem escrito sobre isso e hoje retomo o assunto. Não me apetece falar da violência nos recreios e salas de aulas nem do bullying gratuito (nem do genial e arrepiante Lord of the Flies a que o Quintarantino já aludiu esta semana). Falarei antes de Nós, aqueles que, por razões cronológicas, asseguram a existência mundial tal como a conhecemos.

Será que já olhámos para Nós? Que gerações é que vamos pôr no mundo para assumirem, na sua vez, as suas responsabilidades cronológicas coevas?

Pasmo só de pensar em Nós e de como andamos omissos do papel educativo. A escola tem de ser uma brincadeira. Os manuais escolares têm de ser umas bonecadas acéfalas (louvo a tese de mestrado que saiu agora e que faz um excelente retrato da infantilidade dos manuais escolares, finalmente!). Os professores têm de ser educadores sociais. Os pais…

Coitados dos pais… Ou andam ocupadíssimos com vidas profissionais incomplacentes e intolerantes com a família. Ou andam reféns dos filhos. Ou ouvem umas teorias enviesadas e pensam, desgraçadamente, que têm de esquecer o fosso geracional e ser amigos em vez de progenitores (aí, lamento afirmar, mas a par dos grandes e louváveis avanços nos afectos, o Dr. Benjamin Spock também contribuiu q.b. para a oligarquia dos infantes em que nos encontramos). E, depois, há aqueles que deveriam receber um prémio Nobel todos os dias e criam filhos humanamente.

Porém, de tudo isto, o que me pasma mais, ainda, é o horror social que se associou à palavra disciplina. Como se essas quatro sílabas significassem o holocausto (graças aos santos que não estou na Alemanha e ainda posso usar esta última palavra!). Uma pessoa diz “disciplina” e lá vem o povo todo a pensar que se anda a defender o castigo corporal ou qualquer outra ignomínia do género.

Desculpem lá, mas disciplina é educação, é o crescimento regrado a bom senso. É o ir para a cama cedo, mesmo que a Bounty infantil lá de casa se amotine. É o levar à séria as pequenas responsabilidades (conheço um caso em que a mãe anda escrava do Tamagotchi porque o filho se fartou de matá-lo e agora a dita tem de educá-lo para o menino não ficar triste!). É o estabelecer limites e definir comportamentos aceitáveis de tolerância para com os outros e simples cortesia. É o estancar o “sim” que é “sim” e o “não” que é “não”. E é cada um no seu mundo (lembro-me que a primeira vez que me sentei na mesa dos adultos tinha 12 anos, não digo que é certo ou errado, ou o modelo a seguir, mas miúdos e graúdos são entidades com identidades distintas).

Agora o que eu vejo por aí… Miúdos que exploram os pais, que lhes falam com mil pedras nas mãos, que lhes dizem “Daahh” e “Helloo”, que só fazem alguma coisa, inclusivamente estudar, a troco de. Tenham dó! Vamos esperar cidadãos de gente que passa a primária a colorir bonecos? Que fala com os pais como se estes fossem um monte de lixo? E os professores uns serviçais? Vamos continuar neste banho-maria ou vamos ser adultos?

Depois, surpreendemo-nos…

11 comentarios:

António de Almeida disse...

-Genericamente de acordo, sou adepto da disciplina e autoridade, não confundir com ditadura ou autoritarismo. Usando a força se necessário, também aqui não confundir com violência. O problema são sempre os equívocos, e os que se confundem, baralhando tudo.

Sniqper ® disse...

Depois, surpreendemo-nos… Quem e Porquê?
Ora então vejamos, moda ou reflexo da sociedade actual a dita violência nas escolas?
Só existem pais omissos porque assim o entendem, bem como as justificações que apresentam que não passam de um xanax para dormeirem descansados, coitados!
Horror associado a disciplina é a prova real da sociedade anormal em que vivemos. Um simples jogo de palavras para tapar o sol com a peneira.
Acham que alguém pode crescer com bom senso, educação e respeito pelo próximo numa sociedade em que esses valores morreram?
Basta andar com os olhos bem abertos, observar e nada mais é preciso para dizer...
Nós Somos Os Culpados.
A confusão gerada na cabeça entre Liberdade e Civismo é a real culpada de tudo, foi com ela que a geração dos ditos pais omissos cresceu, alguns claro, como tal é com ela que continuam a consentir que outra geração lhes siga os passos, trocando o Olá pelo Hello, o Não Gosto pelo Daahh e afins, mas e cá está o lindo do mas, foram eles que consentiram ou aprovaram a inclusão de certos termos no dicionário da língua portuguesa?
Bué da Fixe não foi essa excelente ideia e mais anormalidades viram até esta sociedade ficar Úmida de tanto deixa andar...
Aguentem-se, afinal não foram eles que começaram, ou foram?

João Castanhinha disse...

Grande Generation Gap que para aí vai:) pareçe que já não se lembram das nossas tropelias, dos nervos que nós teens provavelmente dáva-mos aos nossos pais (ainda não conheçi nenhum santo), a liberdade, a cidadania não são valores estanques, são dinâmicos, esse pareçe-me ser o maior problema da nossa Escola e da forma de educar, Estamos ainda com um modelo pré-Maio de 68 numa sociedade Hitech de 2008.

Upgradense people.;)

Manuel Rocha disse...

Está muito bem posto, Blondy !

:))

antonio disse...

Ui! Olha manda-me lá um manual, desses para colorir, do tipo: Como ser adulto sem grande esforço.

Se passar podes-me enviar o: Como assumir as suas responsabilidades.

Agora vou ver televisão.

Compadre Alentejano disse...

Bom post, parabéns.
Há uma grande falta de disciplina no meio familiar, e isso reflecte-se na primária.
Ainda me lembro quando entrei na escola, em 1954, e o meu pai me disse: Não quero queixas da professora, senão...
O mestre-escola era respeitado e dava-se a respeitar.
Agora...
Um abraço
Compadre Alentejano

quintarantino disse...

A condescendência com que os pais encaram as tropelias e diatribes da prole tarde ou cedo têm um custo ... por vezes, e como bem dizes, com a completa inversão dos valores e da hierarquia caseira!

Um pai e uma mãe não se podem esquecer que antes de serem os melhores amigos dos filhos são seus pais ... e aí há uma ligeira diferença que faz toda a diferença.

Peter disse...

Apoio inteiramente tudo o que escreveste, mas eu pertenço a uma (ou duas) gerações anteriores, quando e mais pelo n/respeito para com eles, só depois de homens fumávamos frente aos pais.

Estamos a misturar "indisciplina" com "crime", reinvindicamos "direitos", mas não aceitamos "deveres" e ententemos que "liberdade" é o mesmo que "irresponsabilidade".

Numa sondagem recente, a culpa deste estado de coisas foi atribuida em 57% aos pais e todos sabemos as causas e cada um sabe de si. Eu, não enjeito a minha quota-parte de responsabilidade.

Tiago R Cardoso disse...

Concordo inteiramente com o ponto de vista.

Disciplina, embora prefira a palavra educação é aquilo que se tem vindo a perder.

Não aquela disciplina à antiga ou uma capaz de podar a espontaneidade das crianças ou dos jovens.

O que se pretende é uma educação que permita que este futuro que ai bem, seja um futuro saudável e participativo.

Carol disse...

Blondie, my dearest, eu assino por baixo!

LUIZ SANTILLI JR. disse...

A Democracia só é boa(?) como filosofia de Estado!
Os pais praticam a democracia doméstica por comodismo e falta de preparo!
Discplina e limites fazem bem desde os primeiros dias de vida até os últimos!
O medo de ser autoritário acaba transformando pais em joguetes nas mão de crianças, muito mais sabidas que seus genitores!
É preciso coragem, vontade e, acima de tudo competência, para educar os jovens de hoje!

Um dia, anos atrás, estava dando aulas e a turminha do fundo da sala ria de mim! Pedi com modos que se contivessem, pois eu não estava contando piadas, estava dando uma aula de desenho.
A gozação continuou. Eram jovens de mais de 17 anos, pois estávamos numa aula da universidade.
Cansei e resolvi ir até eles.
No caminho tirei o casaco e fui arregaçando as mangas da camisa!
Sou meio fortinho, e isso deixou-os surpresos!
Cheguei na frente deles e perguntei qual era a graça?
Todos ficaram cabisbaixos, mudos!
Continuei:"Bem, como ninguém quer falar, todos vão apanhar!"
"Vamos para a rua, pois devemos respeitar a sala de aula!"
Na hora todos se desculparam e acabamos ficando bons amigos, até o fim do ano!
Observação: estava morrendo de mêdo de algum se levantar, pois eu nunca havia brigado na vida!!!

Conclusão, os jovens precisam ser tratados com educação mas com autoridade! Eles devem saber os limites e o que é bom para a saúde!

Concordo com a matéria, muito bem colocada!