Línguas (des)Cruzadas

No passado dia 17 de Março, o Quintarantino decidiu, e bem, publicar um post em que celebrava a vitória de Alda Lemaitre nas eleições francesas. Para além de parabenizar esta luso-descendente, ele pretendia reflectir sobre a integração desses emigrantes nos países de acolhimento e na forma como são valorizados, ou não, pelos seus conterrâneos em Portugal.

Uma das formas de que o nosso país dispõe para galvanizar os emigrantes, mantendo-os, apesar da distância, ligados às suas origens culturais, é promovendo o ensino da Língua Portuguesa junto dessas comunidades. No entanto, isso não se tem verificado, apesar de haver uma procura cada vez maior desta língua pelos filhos destes emigrantes.

Efectivamente, desde Agosto de 2006 (D.L.165/2006) que o Ministério da Educação (M.E.) estabeleceu um novo regime jurídico do ensino de português no estrangeiro. Este introduziu a abertura de “concursos especificamente para a contratação local de docentes”. Os candidatos terão que obedecer aos seguintes requisitos:

a) “Terem realizado a formação académica em Portugal ou em estabelecimentos de ensino do país a cuja área consular concorrem e estejam devidamente habilitados para a docência de Português”;

b) Revelem domínio perfeito da Língua Portuguesa, a certificar...

c)“Sejam residentes no país a cuja área consular concorrem e nele residissem há pelo menos um ano antes da primeira colocação...”.

Para além disso, os contratos passaram a ser anuais, renováveis por um máximo de três vezes (até aí eram de quatro anos) e os docentes do quadro que sejam colocados no estrangeiro são obrigados a pedir uma licença sem vencimento.

O diploma, segundo o Secretário-Geral do Sindicato dos Professores das Comunidades Lusíadas- Abílio Videira, “tornou o ensino do português precário e levou à pauperização das condições de vida dos professores”. De facto, os horários actualmente são incompletos e isso leva a situações caricatas como o de um professor de Português, do ensino primário, que trabalha na região parisiense e que, à noite, tem de fazer limpezas num escritório para fazer face a todas as despesas.

Carlos M. Pereira, presidente do Conselho das Comunidades Portuguesas, afirma que há uma desvalorização do ensino do português, que no Orçamento de Estado de 2008 recebeu 37,5 milhões de euros. Isto numa altura em que os jovens luso-descendentes, sobretudo os que têm menos de 25 anos, apresentam “um enorme desejo de conhecer as suas raízes portuguesas, a começar pela língua dos pais”.

O problema é que, na sua opinião, “isso não está a ser valorizado por Portugal”. De facto, a procura está a aumentar, mas “os professores estão a diminuir” . Há nove anos, “havia cerca de 400 professores de português, em França, no ensino primário e secundário”, enquanto que hoje em dia existirão cerca de 130.

Por outro lado, as aulas promovidas por comunidades emigrantes não são reconhecidas pelo M.E..
Na sua opinião, esta situação deve-se essencialmente à falta de visão e de vontade política do Estado português.

E vocês, o que pensam sobre este assunto?
Consideram que o investimento no ensino da nossa língua pátria seria uma mais-valia para todos nós ou um simples desperdício de tempo e dinheiro?

19 comentarios:

quintarantino disse...

Não são adepto das teorias mais ou menos parolas da defesa da Língua Portuguesa custe o que custar e da sua não evolução, embora este figurino de Acordo Ortográfico que para aí anda não mereça a minha concordância.

Para mim basta que tenha a percepção que o mesmo mais não é que uma cedência ao brasileiro.

Quanto ao ensino da língua portuguesa no estrangeiro junto das comunidades emigrantes ou até de naturais do país que o desejassem aprender não vejo que daí venha mal ao mundo, nem grande despesa que pudesse inquinar o sacrossanto défice.

Aliás, para susterem o défice bastava, entre outras medidas, que contivessem despesas de telemóveis e pagamentos a prestadores de serviços externos.
Já alguém se perguntou porque somos diariamente confrontados com uma diarreia legislativa?
Quem faz essas propostas de lei?
Alguém sabe?
Quanto custam?

Em até tenho um argumento populista em favor do ensino de língua portuguesa no estrangeiro junto dos emigrantes ... pois se eles podem votar na eleição presidencial, como hão-de entender os candidatos se nã souberem falar português?

Sniqper ® disse...

Uma questão de facto que merece uma análise, aliás como muitas que todos os dias enchem a Comunicação Social e ficam depois na prateleira do esquecimento, empurradas por programas ou notícias destinadas a fazer chorar as pedras da calçada!
Divulgação ou seja lá o que quiserem chamar ao evento, de levar além fronteiras a Língua Portuguesa é para pensar duas vezes, ou seja quem decide abandonar Portugal, seja lá pelas razões que tiver deixa de participar na sua evolução, no caso presente acho melhor chamar destruição, como tal até direito de votar deveria ser analisado, simplesmente porque quem não está, não participa, então que raio de direito terá depois de opinar, no caso votar?
Como tal acho bem melhor ensinar a Língua Portuguesa nas escolas, começando por Portugal, como deve ser, com condições e já agora olhar bem a direito para esse tal Acordo Ortográfico, que vai servir para que, pergunto eu?
Aliás e como para conclusão, continuamos num país onde se fala demais e obras é o que podemos ver, como exemplo agora existe um novo campeonato de aeroportos, ou melhor de locais, giro não é! O último resultado conhecido era a Ota a ganhar 5-2 a Alcochete, será que já está marcada a data para a final, e em caso de empate, serão as grandes penalidades ou moeda ao ar que decide o vencedor?
Portugal, quem te viu, quem te vê e que dose de paciência e boa vontade é preciso para viver neste cantinho onde cada dia é uma novela nova, venha paciência!

António de Almeida disse...

-Se algo o país sempre fez, foi exultar o sucesso dos emigrantes ou luso-descendentes, qualquer que tenha sido a área ou o país onde se destinguiram, por vezes mesmo que alguns não possuam qualquer ligação, afectiva, familiar ou linguistica a Portugal. Veja-se o caso dum jovem futebolista, que a nossa federação descobriu que existia quando alcançou sucesso no futebol holandês, chamando-o a uma selecção nacional de jovens, mesmo sem perceber uma palavra de português. Quanto ao ensino da lingua portuguesa no exterior, julgo que valerá a pena ser apoiado pelo estado, mas não a qualquer custo como refere e bem, o Quintarantino.

lusitano disse...

O problema do ensino do Português sempre foi, a meu ver, considerado coisa de pouca importância.
Sente-se em relação aos emigrantes, agora interessados novamente em o aprender, mas também nos paises ditos de "expressão portuguesa", onde se assiste a um crescendo da lingua francesa na Guiné e do inglês em Moçambique.
E porquê?
Porque não fazemos um esforço nesse sentido, enquanto a França e a Inglaterra o fazem sem problemas.
Gasta-se em muita coisa, mas para defesa da lingua portuguesa, não há disponibilidades.
Depois queixamo-nos que os "outros" querem dar cabo da nossa cultura, das nossas tradições, etc, etc...

Carol disse...

Quin Não podia estar mais de acordo!

Sniqper Como filha de emigrantes, não posso concordar com a sua perspectiva! Os emigrantes representam o nosso país e, muitas vezes, distanciam-se devido à forma como são encarados, aqui, pelos seus conterrâneos e pelo próprio Estado. Há emigrantes que continuam interessados no que aqui se passa, que enviam divisas para Portugal, que pretendem regressar como também há nacionais que não participam na vida activa de Portugal e se borrifam completamente para o que aqui se passa!

António Não tenho, de todo, essa percepção. Se calhar esse tratamento é só para com alguns lusodescendentes.
Eu nasci fora de Portugal e não fui registada na embaixada portuguesa. Isso custou-me anos de lides burocráticas para conseguir a nacionalidade portuguesa...

Carol disse...

Lusitano: Agora é que o meu amigo disse tudo! Os outros fazem-no, mas nós não. Um dia, será tarde demais para reverter estas situações.

quintarantino disse...

Eu regresso para dizer que assinalo como notável uma coisa que o SNIQPER escreveu e disse. E que apoio inteiramente.

E que é " ... bem melhor ensinar a Língua Portuguesa nas escolas, começando por Portugal, como deve ser, com condições ..."

Tem toda a razão.
Que comecem por o ensinar aqui em Portugal e como deve ser!
Talvez até com umas leituras dos clássicos. Se "Os Maias" é demasiado denso para a rapaziada dos tempos modernos que leiam, ao menos, "A Cidade e as Serras" ou "A Relíquia" e que aprendam e vejam como se escreve.

Carol disse...

Quin: Como é óbvio, e sendo professora de Língua Portuguesa, eu também defendo o bom ensino da nossa língua neste cantinho à beira-mar plantado. Mas olha que "Os Maias" ainda fazem parte dos programas de 12º ano e, pasme-se, alguma dessa rapaziada até aprecia a obra!

Sniqper ® disse...

Carol,
Neste Portugal em que vivemos cada um é dono da sua opinião e responsável pela mesma, felizmente. Como tal é sempre da discussão que nasce a luz, essa que pode ou não ser suficiente para iluminar as soluções para os tão complicados problemas com que Portugal se debate, principalmente por ser governado por essa classe que fala, os tais que habitando cá nada fazem, ou melhor o que fazem é penalizante para a maioria dos portugueses.
Quanto ao problema emigração, aceito e respeito que a geração dos seus pais e ainda alguma actual, mesmo trabalhando em outros paises se interesse pelo berço onde nasceu e aplique as suas divisas em Portugal, mas olhe que se calhar a maioria quando apanha o avião fecha a porta até ao dia em que o governo lhes dá condições diferentes dos que dia a dia trabalham e contribuem para uma possível recuperação deste coma profundo em que vivemos.
Como não poderia também de reafirmar a minha opinião em relação aos emigrantes que entram em Portugal, a coberto dessa linda União Europeia e ocupam muitos e muitos postos de trabalho enquanto milhares de portugueses fazem contas aos cêntimos que recebem do fundo de desemprego, nota-se aqueles que recebem. Será que vamos continuar a ser o berço da hospitalidade? Porquê, pergunto eu!?

Carol disse...

Sniqper: Compreendo a sua posição e até aceito que tenha alguma razão, mas olhe que há muito quem seja adepto do fundo de desemprego e pouco dado ao trabalho! Infelizmente, há muito quem não queira trabalhar... Preferem ter empregos!

Sniqper ® disse...

Carol,
Desta vez estou totalmente de acordo consigo, basta ler, ver ou ouvir com atenção os exemplos de quem nos governa!
Mais parece a dança das cadeiras, a música é sempre a mesma, as cadeiras vão aumentando na medida em que aumentam do mesmo modo os participantes, mas existe uma variante ao jogo tradicional que todos conhecemos, é simples. Enquanto que no tradicional quem fica em pé sem cadeira vai apanhar ar, neste é bem diferente, muda de jogo, vai para outro e ainda leva uns trocos chorudos para a viagem, e esta hein!
Com exemplos destes depois é claro, instala-se a lei do salve-se quem puder e lá andamos nesta selva chamada Democracia!

linfoma_a-escrota disse...

sempre os mesmos assuntinhus da merda, when the music is over just turn off the light will you??




www.movimento-xexe.blogspot.com





WWW.MOTORATASDEMARTE.BLOGSPOT.COM

quintarantino disse...

Assuntinhos de merda, diz ali a heroína ... sejam assuntinhos de merda ... mas deu-se ao trabalho de aqui vir ... displicente e enjoativa, mas veio!

E para fazer "publicidade" àquilo que considera o supra-sumo da criação.

Carol disse...

Sniqper: E, agora, concordo eu em absoluto consigo! Chegámos a um entendimento!

Ó Linfoma, assuntinhos escreve-se com "o".
E, esta merda, se calhar, devia-lhe interessar. Assim, escusava de dar calinadas na sua língua e fazer má figura!

Quanto à publicidade, não se esforçe: estamos imunes!

Tiago R. Cardoso disse...

Defender e promover o português é essencial.

Esta distancia a que são colocados os emigrantes está cada vez maior, fecho de consulados, falta de dialogo, tem afastados as comunidades de emigrantes do nosso português.

Hoje, jovens filhos e netos de emigrantes já pouco ou nada falam de português, uma pena que se continuo este desinvestimento.

antonio disse...

Língua portuguesa para promover os laços com a mãe pátria? Puro engano! Nada bate o futebol.

E olha que o português falado nesse mundo (do futebol) não é propriamente famoso.

Blondewithaphd disse...

Cliché à la Blonde (Pardon my French!): A minha pátria é TAMBÉM a língua portuguesa! Vindo de quem vem acho que percebem a mensagem!

Carol disse...

Tiago, estás coberto de razão! O fosso criado entre Portugal e a comunidade emigrante parece-me, de facto, cada vez maior.

António, com que então futebolês?!
Olha, se calhar devemos, também, a esse mundo o interesse crescente dos lusodescendentes (e não só!) pela nossa língua. Isn't it ironic?!

Blondie, e que pena que essa pátria não seja a de muitas mais pessoas por esse mundo fora!

Dalaila disse...

é importante que se mantanha o estudo da lingua portugues anas escolas.