Fundamentalismo ou Intolerância ?

Marcos Santos - 22.04.2008

Engraçado é quando uma pequena criança de apenas quatro anos, leva você a refletir sobre temas tão pesados. E aconteceu comigo.

Estávamos na semana que antecede ao Carnaval e resolvi presentear a netinha de um querido amigo meu, com uma máscara de coelhinha. A máscara era realmente muito dengosa e achei que combinaria com o jeitinho faceiro da menina.

O que me surpreendeu foi a reação da pequenina. Ao estender-lhe a mão com o presente, não obtive resposta. Ela manteve-se com as mãozinhas para traz, recusando-se a pegar a prenda. Insisti dizendo que era dela, que poderia pegar.
E ela fulminou-me.
- Carnaval não é de Jesus, disse-me a pequenina.

Eu ainda retruquei.
- Mas você não precisa usar a mascara no Carnaval. Você pode brincar com as amiguinhas em qualquer época do ano.

Ela fechou questão.
- Meu pai disse que máscara é do Diabo.

Depois dessa, recolhi-me a minha insignificância e fui pensar na vida.

O Carnaval, como muitas outras festas ocidentais (religiosas ou não), têm origem pagã. Gostem ou não, essa é uma verdade que temos que conviver.

Mas chegou o Carnaval. O Brasil está em festa. O Oriente Médio está em guerra. A China não ta nem aí. E a gostosona sacode seus peitos e sua bunda ao som de Allah-la-ô.
Ou seja: O fundamentalismo religioso não causa guerra. O que causa é a intolerância entre as pessoas. Usam a religião para justificar seus atos. Mas no fundo é só vontade de brigar, de segregar, de diferenciarem-se.

Há pouco tempo, alguns cartunistas europeus foram ameaçados de morte por desenharem Maomé. Isso é fundamentalismo?
A gostosona que balança seus predicados lácteos nos bailes de Carnaval, ao som de Mas que calor ôôô ôôô, nem toma conhecimento e acreditem, os muçulmanos que ameaçaram os cartunistas europeus, não estão nem aí pro rebolado da nega. Allah, meu bom Allah.

No Brasil, Allah promove a convivência pacífica entre os turbantes do Islamismo e os tapa-sexos do Carnaval. A isso chamamos de tolerância. Vamos continuar assim?
Eu prefiro.

A menininha de quatro anos ainda é pequena para ser fundamentalista, mas pode estar sendo iniciada na prática da intolerância. Isso é uma pena. Por enquanto ela é engraçadinha.
E quando crescer, vamos continuar a vê-la desta forma?

Não gosto de Carnaval, não gosto de bailes, mas gosto de ver as pessoas divertirem-se na festa. Não acredito que elas estejam possuídas por entidades malignas, pelo fato de estarem rebolando ou se esfregando com a libido a mil.

Pensem bem! George Bush jogando bomba onde quer e bem entende, e "nós" achando que o Capeta está aqui, responsável pelas bundas do Brasil. Só pode ser piada!

Sinceramente, acho que o Rabudo tem muito mais o que fazer na Casa Branca do que na Marquês de Sapucaí.
Com certeza!

Notas:
1 - Marquês de Sapucaí é o nome da rua, onde se fazem os desfiles das Escolas de Samba (Sambódromo do Rio de Janeiro).
2 - As partes em laranja, são trechos da marchinha de carnaval Allah-la-ô (de domínio público).
3 - George Bush... nem ele mesmo, sabe quem é.

7 comentarios:

bluegift disse...

Ora, aqui está um excelente artigo para iniciar esta nova fase do Notas Soltas! Impossível reprimir uma gargalhada perante esta observação muito bem apontada: "Pensem bem! George Bush jogando bomba onde quer e bem entende, e "nós" achando que o Capeta está aqui, responsável pelas bundas do Brasil. Só pode ser piada!".
Pena é que em algumas situações, o extremismo de certas convicções nos prive de apreciar o lado alegre da vida.

Tiago R Cardoso disse...

De facto o fundamentalismo anda por todo o lado, não só em questões religiosas, está na moda, na alimentação, no fumar, na educação, na saude, etc.

Entretanto as pessoas esquecem-se da tolerância, esquecem-se do respeito pelos direitos do outros e a opinião do outro.

Essa do Bush nem saber quem é está bem conseguida.

Excelente entrada com este texto.

tagarelas-miamendes disse...

Muito interessante.
Parece-me que o fundamentalismo e' uma caracteristica do sec XXI. O problema, foi que eu vivi cerca de 4 decadas no seculo anterior e creio que nao estou preparada para isto.
Eu concordo que ganhamos muito mais, como seres humanos, com umas boas festas, umas boas risadas, e porque nao umas boas futilidades, do que desperdicarmos a nossa curta existencia com regras fundamentalistas e castradoras." Life is too short, my Dear".

Carol disse...

Marcos, parabéns, o teu texto está excelente!
A intolerância está aí e, parece-me, veio para ficar, porque, infelizmente, essa menininha não é caso único.
Por cá, educam-se as crianças a não tolerar fumadores, por exemplo, fazendo com que elas persigam os próprios pais!
Ora bolas, cada um sabe de si e Deus sabe de todos, sempre ouvi dizer! Que raio de mentalidade esta de que temos de vigiar o vizinho do lado!
Nada tenho contra as práticas (religiosas ou não) de cada um! Tenho tudo contra o excesso, contra o fundamentalismo e a intolerância!

lusitano disse...

Pois o texto é bom e interessante e até verdadeiro e até tem um bocadinho do tal fundamentalismo expressado na referência à figura do George Bush arvorado em único mal do mundo.

Mas estou absolutamente de acordo: abaixo o fundamentalismo, seja ele qual for!

lusitano disse...

Ah e ainda a tempo: estou-me borrifando para o Bush, ou seja, não sou apoiante da sua politica, mas como dizia o Jô Soares, salvo o erro: E sou só eu!!!!

quintarantino disse...

A questão do fundamentalismo radica numa escala de valores que é determinada por quem?
Vocês sabem?
Pelos sectores dominantes da sociedade e com capacidade de influenciar a opinião pública.
Quanto ao enfoque aqui dado, e entre o Carnaval brasileira ou o aço americano, opto pelo Carnaval. Embora não seja adepto.
Entre o aço americano e o aço dos islamitas radicias, opto pelo americano.
Aí, desculpem-me, mas mal por mal sempre falo inglês e consigo entender-me com os "americas"!