Confissões de Uma Ex-Fundamentalista

Já não posso mais ouvir falar em alterações climáticas! Estou farta dos ecologismos baratos e das modas “verdes”. E, sobretudo, já não aguento mais o cinismo do não poder falar contra a onda do environmental-friendly porque é politica e socialmente incorrecto. Não há pachorra!

Vem este desabafo todo a propósito de, nesta semana, se ter regressado ao Inverno, ter havido uma espécie de tornado (ou um tornado a sério) e de, mais uma vez, se voltar à vaca fria do ambientalismo e das alterações climáticas.

Até há não muito tempo vesti a capa da cruzada ambiental. Vivi num país onde reciclar e separar o lixo doméstico é levado a sério e onde os cidadãos pagam multas se, desgraçadamente, deixarem ir um guardanapo misturado nos resíduos sólidos biológicos ou se, pior ainda, deixarem ir a tampa de plástico na garrafa de vidro que, apropriadamente, tem de ir para o vidrão, ou, esta era a melhor, se o minúsculo agrafo do pacotinho de chá fosse para o lixo biológico (é que agora os pacotinhos já não trazem agrafo)! A tirania total (isto num país que construiu a indústria que tem à custa de muito poluir e que tem dos solos mais poluídos da Velha Europa, mas enfim, agora é muito verde e o Der Grüne Punkt tornou-se o símbolo de protecção ecológica em trinta países, é usado por 130.000 empresas e aparece em 460 biliões de embalagens em todo o mundo).

Irritava-me o consumo excessivo de combustíveis fósseis, maldizia os Estados Unidos todos os dias à conta do Protocolo de Quioto, achava os portugueses uns irresponsáveis em questões ambientais (tem vezes que ainda acho, é verdade) e passava pela vergonha de pegar nos meus saquinhos de pano, escritos com coisas tão bimbas como “Mach die Umwelt fit!” (Torna o ambiente fit!), e enfiar-me nas superfícies comerciais onde me olhavam (já de mim bimba) como uma criatura meio bifa aluada e toda Greenpeace que, coisa estranha, recusava os sacos plásticos gratuitos, dados, oferecidos nas caixas. Os CFCs, os tais de clorofluorcarbonetos, eram a nova incarnação do demo. O Buraco do Ozono mais o consequente e infame Efeito de Estufa provocavam-me grande apreensão. E, tenazmente, reciclava tudo e enfiava os desperdícios em grandes sacos que depois, como moro no campo, punha acondicionados na carrinha e conduzia até à civilização para, ordeiramente, depositar vasilhame, embalagens, pilhas e etcs. nos respectivos contentores.

Era como se me tivessem feito uma lavagem cerebral.

Deixei-me de fundamentalismos. Continuo a levar os saquinhos de pano com frases bimbas às compras e reciclo as pilhas. Sou muito cuidadosa nos gastos de água e tenho contador eléctrico bi-horário e algumas lâmpadas economizadoras (nas divisões da casa que não uso todos os dias, admito!). Já não reciclo e conduzo a diesel. Para quê? Os sucedâneos de produtos reciclados não trazem as vantagens milagrosas apregoadas e, para o consumidor, a mais-valia está onde se os seus preços não são competitivos? E os produtos biológicos? Provou-se agora que em termos nutricionais são iguais aos outros e não é com eles que o cancro se combate, o preço, outra vez, não compensa.

Por fim, cheguei à conclusão (brilhante) que os estudos do clima dividem a comunidade académica-científica, o buraco na camada de ozono sobre a Antártida não se encontra há um bom par de anos, o medo do aquecimento global transforma-se no receio do arrefecimento global. E afinal, num planeta com milhões de anos, sistema vivo e sujeito a mutações, nós, espécie recente, só nos debruçamos sobre o clima há um nano-segundo de tempo e achamos que temos de submeter a força climática a regras? Sim, é verdade que notamos (e eu também noto) que as estações não estão definidas, que há frequentes perturbações atmosféricas. E sim, também advogo uma certa consciência ambiental, mas fundamentalismos e messianismos apocalípticos? Não, deixei-me disso!

25 comentarios:

Carol disse...

Blondie, dearest, essa tua descrição de bifa bimba e meia aluada, agarrada à saquinha de pano com frases, também elas, bimbas deixou-me... à beira de um ataque de riso!

Olha, amiga, eu sou contra todo e qualquer tipo de fundamentalismo!
Preocupo-me em reciclar e utilizo lâmpadas económicas, tento controlar os gastos de água... Olha, faço o que posso! Se todos fizerem alguma coisita, é melhor do que nada.

Sniqper ® disse...

Um texto de uma profundidade e de uma análise fantástica, sem dúvida!
Como alguém disse...

"Alguns cientistas acreditam que hidrogênio, por ser tão abundante, é o elemento básico do universo. Eu questiono este pensamento. Existe mais estupidez do que hidrogênio. Estupidez é o elemento básico do universo."

E baseado realmente nessa frase, direi que quem aposta no fundamentalismo e messianismo vive numa perfeita estupidez, arrastando consigo outros que acreditam nas suas mensagens.
Enfim, conversas que valem o que valem, nada!

Sniqper ® disse...

Já agora, como ando meio esquecido, coisa que me está a preocupar, deixei um exemplo por assinalar que define a "Estupidez" no seu melhor, como tal aqui fica, chama-se...Joshua, o tal que ainda não saiu das cavernas e que fala que é um mimo...

Zé Povinho disse...

O desencanto é natural quando tudo se rege ao nosso redor por critérios económicos. As preocupações ambientais não têm de configurar comportamentos fundamentalistas, que desvirtuam completamente a sua razão, mas a nossa consciência, e porque não a carteira, levam-nos a encontrar um equilíbrio, sem esquecermos que o ambiente é para preservar.
Abraço do Zé

quintarantino disse...

Vendeu-se, a moça!
Só pode ...

Blondezinha, faz favor, reunião de emergência ... não há "spin doctor" que aguente estas reviravoltas!

O que tu me foste dizer e escrever ...

Não tenho nada a favor de messianismos ou sebastianismos, e desconfio dos que vogam sempre nas extremidades da correnteza ... mas que diabo, há que cuidar de fazer qualquer coisa.

Se já assim meio mundo se borrifa sequer para a limpeza da rua em que vive, se não se carregar nas tintas corre-se o sério risco da outra metade se associar ...

Agora que há por aí exageros, ai isso há ... mas a culpa, se calhar, é de um sistema assente na exploração desenfreada de tudo quanto é matéria prima e de um consumismo atroz ...

Olha, eu costumo dar como exemplo o desgraçado do aloé vera ... que tem propriedades terapêuticas não se duvida, agora tudo vem com aloé vera ... até iogurtes!

Outra exemplo é a batata e a soja, mas aqui não digo nada!

António de Almeida disse...

-Bem vinda ao clube. Acreditar em ambientalismos que promoveram os bio-combustiveis, e com eles a subida nos preços dos cereais, o aquecimento global, que por sua vez promove toda uma industria de recicláveis, que bem analisada resulta numa pegada ecológica pouco ecologista, em políticos que fizeram pouco quando detiveram o poder, mas que arrecadaram milhões a dizer mal do W.Bush, por este ter recusado Quioto, quando outros andam a comprar e vender quotas de poluição? Anda muita hipocrisia por aí espalhada, não serei eu a suportar os custos, ambientalismos? Sim, separo o lixo, e faço tudo o que não me custe dinheiro, de resto, façam-no primeiro, que se der bom resultado, depois também alinho.

Manuel Rocha disse...

É ! A outra face das relações excessivas tende a ser igualmente excessiva. Não será o caso da autora, bem entendido (;)), mas subscrevo por inteiro que os fundamentalismos são o pior inimigo das boas causas.

No caso do ambiente, a dinâmica em voga de arregimentar adeptos catequizados pelo medo de acordarem com os pezinhos molhados por um glaciar derretido, terá também o seu reverso.
O que não se pode é confundir os activismos desfocados ( mesmo quando bem intencionados ) ou os oportunismos instalados em redor dos temas ambientais, com os saudáveis princípios que devem reger as nossas relações com o meio, os recursos e o outro. Faça o obséquio de deixar isso bem sublinhado, Senhora Doutora, para que esta saudável abordagem não derive para os fait-divers da praxe e menos ainda para a inaceitável lógica ( ambiental ) da contabilidade de mercearia !

;)

Blondewithaphd disse...

Ó meus amigos,
Fundamentalismos são uma coisa, civismo é outra e preocupação com a poluição outra ainda.
Das três premissas só não subscrevo a primeira. Tal como não subscrevo a lógica mercantilista e obscena aplicada à causa ambiental.

Apesar de desvinculada dos fundamentalismos ambientalistas, aposto (para ganhar) que, mesmo assim, levo vantagem em consciência e práctica cívica e ambiental face a muitos dos meus ilustres concidadãos.

(Quinn e Manel, did I make myself clear?:))

Manuel Rocha disse...

Hummmm...não sei não...Quint, damos-lhe o beneficio da dúvida ?

:))

Blondewithaphd disse...

Damn Manel, you're a tough one:)

quintarantino disse...

MANUEL, eu com uma BLONDE nunca discuto ...

Blondewithaphd disse...

Acho bem:)

Tiago R. Cardoso disse...

Não me considero fundamentalista, mas que isto está a caminho do abismo está.

Gosto particularmente de todos aqueles, que agora defendem que estas alterações climáticas são naturais.

Segundo a teoria, ao longo de toda a historia da terra, sempre existiram estas alterações e que o que assistimos é uma correcção do eixo da terra.

Esquecem-se estes alegres e descontraidos senhores que esses ciclos e alterações ocorreram em períodos de milhares de anos, não em cinquenta anos como aconteceu agora.

Evidente e concordo, que a criação de alternativas aos actuais combustíveis, neste momento é mais prejudicial que eles proprios, a actual cura é mais perigosa que a doença.

Pois eu cá continuarei com o meu "fundamentalismo" evitando certas formas "normais " de actuar, tendo sempre a certeza que mesmo que seja só eu, pelo menos em consciência estou bem.

Manuel Rocha disse...

Acho que o Quint "entregou as cartas" a troco dos 3%.. :( E acho mal!
:)

Peter disse...

"blondewithaphd"

Não sei que te diga, mas sempre me fez confusão esses indivíduos, praticamente desconhecidos, virem para aí opinar na TV sobre problemas demasiado complexos.
Concordo inteiramente quando escreves sobre a Gaia:

"E afinal, num planeta com milhões de anos, sistema vivo e sujeito a mutações, nós, espécie recente, só nos debruçamos sobre o clima há um nano-segundo de tempo e achamos que temos de submeter a força climática a regras?"

Na 5ªF o nefrologista, que me disse qual o resultado da biopsia renal e me prescreveu o tratamento, preveniu-me contra o mito de beber água em abundância:
-“Quanto mais água beber, mais o seu rim elimina proteínas, tão necessárias ao seu organismo. Está provado que o beber 1,5L de água por dia não traz os benefícios que lhe têm sido atribuídos.”

E lembrar-me eu das pessoas que se passeiam por aí de garrafinha debaixo do braço …

Manuel Rocha disse...

Tiago,

Como um dos "alegres e descontraidos", terei que dizer que o meu amigo tem essa questão dos "milhares" de anos vs "cinquenta" anos um bocadito mal formulada.

E mais duas notas:

1. Os impactos da actividade humana sobre o ambiente não é imcompatível com mudanças naturais do clima ( e não confundir "clima" com "tempo" sff )

2. Não percebo que seja necessário discutir a eventualidade de mudanças climáticas para entender que algo terá de ser feito relativamente à quantidade enorme de cavaladas ambientais que se cometem diariamente.

Abraço.

Tiago R. Cardoso disse...

Estava a ver que o Manuel não reagia.

Pensei logo quando escrevi aquilo, "o Manuel se ler, vai dizer alguma coisa, deixa ver..."

Pois é, mal fundamentada é os "estadistas" e falo estadistas no pior sentido, sem incluir o amigo, já que muito do que escreve eu concordo, falta-me é a capacidade de comentar, tem agora a mania de considerar tudo normal, secas enorme no Inverno, tudo normal, chuvas intensa num dia e no outro extremamnete quente, tudo normal, dai a minha admiração perante este corrigir do eixo da terra.

Acho piada, da mesma forma que surgiu uma onda de ecologia e de preocupações ambientais, agora surge uma onda de "é tudo natural."

quintarantino disse...

MANUEL, quais 3%, qual caraças ... generoso como sou, foi a custo zero!

Blondewithaphd disse...

Gente,
Todos sabemos que teorias vão e vêm e nunca nenhuma é definitiva e mais certa do que as outras. O nosso rico azeite já foi considerado uma gordura má e as sardinhadas dantes faziam mal mas agora, milagre, dão-nos ómega3! Por isso, como o Peter diz, ele há muitos mitos e, nos tempos de estudante, aprendi que os mitos não são bem assim a modos que 100% verídicos, não é?

Segundo, certamente todos sabemos que a Europa sofreu uma mini Idade do Gelo por volta do séc. XVI. Nessa altura era possível patinar sobre as águas do Tamisa! Ou seja, as mutações na Terra podem ocorrer a velocidades quase cataclísmicas (quando os acontecimentos não ocorrem mesmo em cataclismo!!).

Terceiro, exemplo.
Durante o séc. XIX Londres e Manchester eram as urbes mais poluídas à escala mundial. O nevoeiro nessas cidades durava semanas consecutivas, era amarelo, espesso e opressivo (basta ler o Sherlock Holmes), o Tamisa era um cano de esgoto a céu aberto (o jeito que me dá parafrasear o PHD!!!!). Tudo isso acabou, graças a políticas ambientalistas que provam a imensa capacidade regenerativa do planeta!!! Lembro que andamos desde a Revolução Industrial a deitar coisas para a atmosfera e ainda aqui estamos!!!

Quarto, outro exemplo. Também me lembro de outros fundamentalistas (como eu antigamente) que diziam que ao fazer-se a Ponte Vasco da Gama os flamingos iam desarvorar daqui para fora. Pois, ou eu alucino, ou a colónia de flamingos do Samouco está bem e recomenda-se.

Por fim, sou contra a poluição, sou a favor de políticas amigas do ambiente, mas não engulo bem que o planeta está a morrer e coisas que tais.

Tiago R. Cardoso disse...

Não está a morrer, não senhor, tens razão, está é a tentar se suicidar.

"Tudo isso acabou, graças a políticas ambientalistas que provam a imensa capacidade regenerativa do planeta!!!" ???

Vamos lá ver, então foi por causa das politicas ambientalistas ou pela capacidade regenerativa do planeta.

Pelo que entendo, do que escreves, se não existissem essas politicas o planeta não teria capacidade de se regenerar.

Fiquei confuso...

Blondewithaphd disse...

Conjugação Tiago, conjugação!

antonio disse...

Blonde o aquecimento global é um fundamentalismo esclarecido!

João Castanhinha disse...

Já agora, e o aumento de 2 para 5 milhões do número de focas no circulo polar ártico ?(e isto apenas na Terra Nova e Canadá), que permitiu o recomeço da caça para fins comerciais?

Não havia degelo? Das duas quatro, ou há gelo ou não há, alguém anda a mentir, e muito.

Sem aquecimento global:
1. Acabariam os donativos para ONGs e associações ambientalistas de objectivos absolutamento duvidosos. (aqui gostaria de apontar a WWF)
2. Já alguém ouviu uma boa notícia ou achievments realizados por estas organizações?
3. Não existiriam noticias catastróficas que vendem muito papel e publicidade nos intervalinhos.
4. Não haveria toda uma nova economia que se queria de ruptura fossil, novo paradigma, mas com ganhos energéticos absolutamento despreziveis, com resultados absolutamento terriveis para as selvas tropicais de todos os continentes, estupidamente aplaudidos por formatados eco-terroristas.

Bio-disel a quanto obrigas...vejam lá, até choveu em Abril, este clima está mesmo maluco de todo.

Tiago R. Cardoso disse...

Gostei da teoria, o facto de se ter proibido a caça à foca e com isso a população ter aumentado, bem provar que não existe degelo, interessante...

João Castanhinha disse...

É assim, isto do aquecimento (ou do esfriamento) dá para tudo :).