O aborto do Humanismo?

A ideia para este artigo surgiu a propósito da entrevista realizada ao Cardeal Patriarca de Lisboa, ontem publicada pela SOL. Fala D. Policarpo sobre o estado actual do catolicismo no mundo e as novas vias que urge criar para o tornar mais próximo da realidade dos cidadãos. Posição com a qual concordo inteiramente.

Estaria contente com esta entrevista não fosse o tema ter descambado mais uma vez para um campo polémico e duvidoso que requer, mais que qualquer outro, uma revisão conceptual urgente, inteligente e mais HUMANISTA (Sim!), por parte da Igreja Católica. D. Policarpo salienta então a determinada altura o perigo que a perda de natalidade teria em Portugal: “...abre a porta a gente vinda do terror”. Nem mais, isto mesmo!

Dar a mão a quem precisa? Que é isso? Multiculturalismo? Só se for além fronteiras, na envagelização! Adoptar crianças africanas, asiáticas ou orientais? Nem pensar! Toca a produzir criancinhas nacionais, made in Portugal! E a todo o custo! Mesmo reforçando a ancestral mentalidade do pecado da concepção e gestação fora do casamento, que obrigatoriamente e de forma paradoxal a torna como uma das principais responsáveis pelo aborto. Fosse a sociedade mais estimulante à gestação sem casamento, num espírito verdadeiramente comunitário de entre-ajuda, e o resultado seria outro. Mais uma das contradições internas da Igreja e da própria sociedade em geral. Mas adiante.

Confesso que esta afirmação acerca da “gente vinda do terror” me choca profundamente. Como é possível explicar a falta de espírito cristão de quem a profere a título de representante máximo da Igreja no nosso país e, ainda por cima, aludindo na mesma entrevista à necessidade da Igreja quebrar o desfazamento com a sociedade?

O nosso Cardeal despertou porém um velho paradigma da nossa mentalidade cuja resolução me parece extremamente dificil, correndo-se o risco de cair facilmente em estratégias contraditórias de resultado futuro deveras duvidoso e utópico.

Vou tentar lançar o problema usando como exemplo uma situação futura "ideal":

- A natalidade em Portugal aumenta de forma significativa atingindo os níveis pretendidos pela Igreja Católica. Isto é, um índice que permite o aumento de católicos e satisfaz igualmente o esquema caduco de segurança social dos governos ocidentais, ou seja, o garantir de um número suficiente de população activa que assegure as pensões e outras prestações sociais. Confirma ainda a existência de mão de obra nacional, não necessitando por isso de se recorrer à “perigosa” rota de destino dos imigrantes “vindos do terror”.

- A natalidade aumenta, a esperança de vida, idem, a cura de doenças mortais, idem, a escolarização e direito a um diploma universitário, idem, por aí fora...

Um quadro bonito, não é? (até parece o tal paraíso do Sócrates...)

Mas eu agora pergunto: Quem é que vai assegurar as actividades mais elementares de manutenção básica da sociedade, quem vai desempenhar as tarefas dos operários?

Quem é que o cardeal D. José Policarpo vai escolher para realizar os trabalhos indiferenciados?

Quem é que este modelo idealizado de sociedade vai escolher para andar a recolher o lixo ou a colocar tijolos numa construção? A limpar as casas e os escritórios? Etc.

Numa perspectiva ecológica, como resolver o problema da quantidade de espaço, da quantidade de alimentação, dos serviços de saúde e educação a prestar a todos, dos tempos livres, habitação, enfim. Será que no futuro nos vamos transformar em aviários de população? Todos alinhadinhos num cubículo onde dormimos e tal, fazendo passar um tubo de alimentação por cada unidade, e por aí fora? Deixo o resto deixo à vossa imaginação.

Como é que que este paradigma vai ser resolvido?

Alguém tem pistas?

22 comentarios:

António de Almeida disse...

-Julgo que D. José Policarpo se referiu ao terror, como apontando o perigo das máfias, e do tráfico internacional de seres Humanos. Pelo menos foi a minha interpretação, em qualquer caso tenho várias vezes opinado sobre estes temas, sou contra toda e qualquer imigração ilegal, no entanto não sou racista nem xenófobo, devemos legalizar na medida exacta das nossas necessidades. Quanto ao problema da natalidade, é um problema de toda a U.E., curiosamente ainda não o é nos EUA, mas um país que realiza gratuitamente IVG's, e depois tem políticas pífias de apoio á natalidade, é uma questão de escolha, só que as escolhas têm consequências. O que não podemos é ficar nas mãos das máfias, isto tem regras, imigração sim, mas legal, com direitos, e na medida das nossas necessidades e capacidades.

quinTarantino disse...

Primeiro quero vivenciar de viva voz que quanto ao desiderato do D. Policarpo pode ele comigo estar descansado que cumpri com a minha parte no que à manutenção/aumento da lusitanidade respeita.

As herdeiras é que não estão muito pelos ajustes e volta e meia têm uns assomos de ingratidão pátria e ameaçam que emigram!

Quanto ao resto, penso que será apenas um "lapsus lingae" do emérito cristão e prelado. Só pode.

Pois se vêm do terror, fogem.
A não ser que sejam ex-agentes secretos no desemprego e que têm tanta facilidade em sacar da pistola (consta, consta) como os portugueses do telemóvel.

Quanto a algumas das perguntas, desconfia-se que a cronista não deve residir em terras lusas pois o que agora por aí há são doutores a atender em lojas ... só ainda não vi nenhum engenheiro na recolha do lixo, mas lá chegaremos.

Ou seja, nós ben não queríamos mas a realidade, essa âncora de chumbo, persiste em nos amarrar à terra!

Peter disse...

Na 6ªF à tarde levei 1h 58m 08s a ver o vídeo ZEITGEIST que me enviaste. Valeu a pena, não foi uma "perda de tempo", foi um "ganho de tempo" e refiro-me a ele porque apresenta de forma credível (quanto a mim) o desenvolvimento do Cristianismo.

Os outros temas não são para aqui chamados e depois falamos.

Hoje fiquei chocado com um artigo publicado na última VISÃO:

"GERAÇÃO EM SALDO" - Têm as melhores qualificações de sempre e vivem no país europeu com o menor número de licenciados. Mesmo assim, os jovens portugueses não arranjam emprego ou esbarram na precaridade"

E interrogo-me:

- Que vai ser dos meus netos?

Como se isso não bastasse, leio no CM de hoje:

"Portugueses em risco de extinção"
- "A instalação de lares e centros de dia para idosos, nas antigas escolas primárias, mostra bem o problema demográfico" (Armando Esteves Pereira, Director-Adjunto")

É para lá que caminhamos? Não será a hora de arripiar caminho?

Blondewithaphd disse...

Há já mais de 10 anos atrás fui a um casamento católico aqui em Portugal em que o padre pedia aos noivos para se multiplicarem porque senão vinham os marroquinos e nós ficávos uma raça mestiçada. Achei aquilo um horror e, claro, os noivos ficaram muito sentidos com uma homília daquela natureza. Não percebi o que aquilo queria dizer. Continuo sem perceber, mas ao ler-te hoje deu-me para pensar se isso não será um discurso de Seminário? Pelos vistos repete-se.
Não comento as palavras de D. Policarpo porque não li o Sol esta semana.
No resto, sabemos, infelizmente, como o discurso da Igreja anda desfazado do tempo contemporâneo e da sociedade de hoje. Mudar é difícil numa instituição que não corta facilmente com dogmas, hábitos e, perdoem-me, preconceitos.

bluegift disse...

antónio de almeida,
Achas que as máfias fogem do terror? Da entrevista só consigo inferir que D. Policarpo se referia, como sempre, à imigração. Que qualquer outra pessoa sem responsabilidade na Igreja se refira a este sujeito como um perigo, muito bem, mas vindo de quem vem cai muito mal.
Ninguém coloca em causa a necessidade de uma imigração controlada, algo que sempre aqui defendi. O problema coloca-se a nível mundial na articulação do aumento da escolaridade com a necessidade de mão-de-obra para as tarefas primárias.
Acho que não entendeste o efeito preverso em que as pessoas caem nas situações apresentadas. Outro problema é o da concepção de crianças para "encher a economia e as igrejas", se é esse o pricípio da natalidade, explica-me: em que lugar fica o humanismo?

Compadre Alentejano disse...

Não há dúvidas: o sr.cardeal vive no país de Sócrates, ou melhor, no paraíso de Sócrates. Eu, simples mortal, vivo no país real.
Até parece que a Igreja Católica ainda está no tempo da Inquisição... Lamento.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Oh BlueGift

Dedique o próximo post à indumentária ritual do Papa e vai ver que compreende o que se passa... :)

bluegift disse...

Quin,
Cumpriste não, contribuiste! Ainda tens que produzir mais um bocado para equilibrar a balança ;)
Nem que fiques a pão e água e vivas numa barraca, o que é preciso é produzir criancinhas! Ainda por cima se elas estão numa de se escaparem do País, como é que ficamos?!
E quanto às palavras obcenas do prelado, fica-te pelo lapsus lingae e não corras, não...
E olha lá, Médicos a atender em lojas? Lá isso eu nunca vi, mas licenciados já vi muitos e não é vergonha nenhuma é falta de planeamento e economia pouco produtiva, isso sim. Se forem apanhar lixo terão a benção de D. Policarpo, não te preocupes.

bluegift disse...

Peter,
Vê e revê o vídeo. Mas com espírito crítico! Senão caímos no risco de sair de uma manipulação e entrar noutra...
Há excesso de licenciados para o estado em que a economia está e para o tipo de licenciaturas de bolso que muitas pessoas infelizmente andam a fazer. Quem mandou paralizar o número de Orientadores Escolares nas escolas secundárias? Não, não foi a Maria de Lurdes Rodrigues, foi uma obra santa do PSD que dura convenientemente até hoje. Os jovens passam a vida a escolher cursos que não têm nada a ver com a realidade económica e o resultado está à vista.
Já agora, o que tens tu contra o facto de o número de pessoas idosas ter aumentado? Ainda bem, é sinal que têm direito à vida, ou não?

bluegift disse...

Blonde,
Tocaste no ponto chave: Os inúmeros preconceitos que afogam a Igreja Católica e, mais grave ainda, matam o Cristianismo! Se a Igreja fosse mais Cristã não teria problemas na participação efectiva da população em homilias.

bluegift disse...

compadre alentejano,
Às vezes chego a pensar que só não está nos tempos de uma espécie de NeoInquisição porque o poder do Estado e dos Reinos já não lhe está submetido, isso é verdade...
Excepção feita a João Paulo II que sempre se pronunciou contra todas as guerras independentemente da proveniência.

bluegift disse...

Francisco,
Vou pensar nisso ;)

Zé Povinho disse...

Não gosto de me pronunciar sobre assuntos religiosos, ou sobre declarações dos seus dirigentes, pelo que me fico apenas pela discordância com a forma como abordou a questão.
Abraço do Zé

bluegift disse...

zé povinho,
O importante é saber porque é que discorda. O assunto é muito incómodo porque as pessoas pura e simplesmente não têm resposta para as questões colocadas. Nem eu. Mas a realidade nua e crua, sem hipocrisias, é esta.
Um abraço também para si.

Tiago R. Cardoso disse...

Em muitos aspectos o orgulhosamente sós continua a imperar, a mentalidade de que tudo o que não seja nacional é mau e a mentalidade de muita igreja, diga-se aquela mais antiga e que manda, mantem os mesmos dogmas e directrizes, infelizmente antigos e ultrapassados.

Carol disse...

Sou crente, mas não me identifico com um catolicismo inquisitório, antiquado e totalmente alheio à realidade.
Já há muito tempo que deixei de dar crédito às palavras de padres e cardeais. Lamento, mas soa-me a um discurso bacoco.


Quanto ao aumento da natalidade, essa conversa já me chateia! É tudo muito bonito, mas veja-se a minha situação: 32 anos, com um rendimento mensal de cerca de 600/ 700€. A renda de casa (um simples T1) leva-me metade do rendimento. Sobram-me 300/400€ para fazer face às despesas restantes. Filhos? Só se fosse parva! Que qualidade de vida teria para lhes oferecer?! Poupem-me!

quinTarantino disse...

BLUEGIFT, menina que é lá isso?

Eu escrevi " (...) doutores a atender em lojas (...)" e tu falas-me em médicos?
Que raio de vício dos lusitanos que só os médicos são doutores ...

António de Almeida disse...

Achas que as máfias fogem do terror?
-Bluegift, as máfias não serão a génese do terror, por vezes a guerra, outras catástrofes, o terror pode ter multiplas origens, as máfias seráo sempre os abutres, alimentando-se das vítimas. Claro que não embarco neste como noutros discursos da I.C., no entanto é certo que temos um problema de natalidade, que urge resolver, com políticas de apoio e incentivo, porque aí termina o papel do estado. Quanto á imigração, sou pela limitação da mesma á satisfação das nossas necessidades enquanto sociedade. Não está em causa um outro caso de refugiados, ou questões como asilo político, mas obviamente que não podemos abrir portas, não temos capacidade para tal, seria importar a própria miséria, o próprio terror. Em relação a políticas de imigração, também sou por políticas que exijam por parte de quem nos procura, a aceitação dos nossos usos e costumes, mas isso é outra questão, que poderemos um dia debater, julgo que expliquei o meu ponto de vista com este esclarecimento, não viso promover a defesa de D. José Policarpo, nem tão pouco criticá-lo, ele não tem responsabilidades nesta matéria, é livre de emitir opinião, como eu, como tu, como todos. Apesar de pessoalmente, até simpatizar com este cardeal, ao contrário de outras figuras com quem não simpatizo tanto, mas isso é irrelevante nesta matéria.

bluegift disse...

Tiago,
É a falta de capacidade para aceitar a mudança, o tal espírito estreito de visão curta que urge mudar.

bluegift disse...

Carol,
Essa é outra das contradições da situação. As crianças deviam ser um geradas em função da vontade livre de cada um e não para aumentar a população devido a motivos religiosos e económicos. Ainda por cima quando uma boa parte da população nem sequer tem condições para os ter. A economia interna precisa de crianças mas ao mesmo tempo não se encontra desenvolvida ao ponto de as permitir em condições. É-se obrigado a recorrer à imigração que também ela não está a ser controlada nem acolhida devidamente e, ainda por cima, sofre de fenómenos sociais de xenofobia pontualmente incentivados, imagine-se, por membros relevantes da própria Igreja.

bluegift disse...

Quint,
É ao contrário. Só em Portugal é que os licenciados são considerados e tratados como doutores. Não sei qual a origem desse hábito mas é exclusivo lusitano. Já várias vezes me vieram perguntar se eu era médica pelo facto de verem que alguma correspondência (vinda de Portugal) tinha o "Dra." antes do meu nome...

bluegift disse...

antónio,
Quem foge das máfias são as vítimas, as tais que D.Policarpo teme; nunca a própria máfia, essa vive bem no caos. E as vítimas devem ser acolhidas e não rejeitadas. Esse é um princípio básico cristão.
A natalidade não deve ser um factor consequente de necessidades económicas, mas sim pessoais. Não há mais incentivos porque o estado da economia não o permite, e, por outro lado, a economia não se desenvolve porque a natalidade é baixa, tendo que se recorrer à imigração. Mas também não existe clima para fazer uma boa imigração. Compreendes a articulação perversa deste paradoxo?
Lamento, António, mas o Cardeal não é uma pessoa comum como eu e tu; tem responsabilidades acrescidas na representação da IC no nosso país junto da população. Foi uma saída muito infeliz que devia ter ficado pela sacristia e nada mais.