Confira aqui como os números da Saúde estão mal!

O excesso de sol fizera-o sentir-se levemente dorido.
Umas dores nos músculos e umas pontadas na cabeça aconselharam-no a recolher mais cedo ao vale de lençóis.
Enquanto pigarreava, recordou-se que ia perder as notícias da TVI, as suas favoritas pois se um homem se quer informado sobre as coisas da Nação também adora ter o triste fado de Portugal entremeado com uma ou outra notícia de faca e alguidar.
Raio de tempo, pensou. Deitou-se e assim perdeu um anúncio que parecia uma bomba.

Em traços largos, como se fossem os pincéis de Matisse, ficou-se a saber que para primeira consulta de especialidade nos hospitais públicos existem nada mais, nada menos que 382 866 doentes.
Dados de um inquérito aos hospitais realizado em 2006 pela Inspecção-Geral do Ministério da Saúde, somando consultas e cirurgias, há quase 600.000 doentes em lista de espera nos hospitais públicos.
Uma bagatela que ultrapassa os 5% da população.

Onde está a bomba, pensam vocês?
É que até agora, só era conhecida a lista de espera nacional para cirurgias, com 208.632 doentes.

Ora, isto para começo de conversa, é milhar a mais para qualquer mortal.
Depois nem todos os mortais têm o dom de conseguir adivinhar como é que aquilo que ainda José Manuel Barroso (outrora reconhecido por Durão Barroso) era Primeiro-Ministro desta horta à beira mar mirrada havia sido anunciado como extirpado, agora surge como mais um Adamastor.

À frente.
O nosso homem, pela manhã, lembrava-se vagamente de ter conseguido acordar com uma sensação etérea a pairar-lhe no corpo.
Dirigiu-se à cozinha, mas nem vivalma.
A televisão lá estava ligada, mas não vislumbrava quem por ali estivesse que lhe pusesse o café e umas torradas à frente.
“Olha, sento-me e espero” - disse.

E enquanto esperava viu uma senhora, muito gira e toda pipi, a debitar umas coisas.
Não tendo bem a certeza, pensou tratar-se de Teresa Caeiro, deputada e coordenadora do CDS-PP na Comissão de Saúde no Parlamento.
“Onde é que a mulher se enfiou? Podia aqui estar para me dizer quem é a senhora, mas não” – pensava levemente irritado.

“Esta é uma questão muito grave, para a qual o CDS-PP tem vindo a chamar a atenção do Governo, e ainda há pouco mais de um mês questionei directamente o ministro sobre a situação”, dizia a senhora.

E ainda a ouviu dizer que a omissão “de relatórios importantes como este, sobre a assistência médica pública, representa um desprezo pelo funcionamento democrático das instituições”.

“Isto sim, mulher de armas” – pensou lá com os seus botões.

Ainda teve tempo de perceber que o agora outra vez CDS-PP queria que o ministro fosse à Assembleia da República explicar porque razão não revelou antes estes dados, qual é o actual ponto da situação sobre as listas de espera e que medidas foram tomadas para melhorar a situação.

“Bem, aqui já era. Muda” – disse.

“Devia haver um sistema mais elástico para patologias mais comuns”, logo lhe saiu do ecrã Pedro Nunes, o bastonário da Ordem dos Médicos.
”Podemos recomendar uma mudança de sistema, mas não podemos tomar a decisão”, afirmou ainda.

“Este deve ser lá dos comunas. Vira para outro lado” – sentenciou.

Sai-lhe uma locutora toda catita e o homem com o coração aos pulos…

“Em comunicado, o Bloco de Esquerda acusou o ministro da Saúde de ter ocultado durante um ano o relatório, afirmando que o Governo manipula a seu proveito os dados da administração pública. O BE exigiu a regulamentação urgente da carta dos Direitos de Acesso dos Utentes, diploma bloquista que a Assembleia da República aprovou por unanimidade e que obriga o Ministério da Saúde a definir prazos máximos para as consultas de diversas especialidades”, garantia a senhora.

“E quem sou eu para duvidar?” – filosofou.

Ainda teve tempo, antes de sair da cozinha, de ouvir o ministro a prometer qualquer coisa.
Vai à sala e, surpreso, constata que está para ali meia família.
Diz bom dia, mas ninguém lhe responde.
Chega-se mais e vê que uns sussurram e outros choram…

“Olá, queres ver que morreu alguém… e eu aqui de pijama”, pensou.
“Coitado, tão novo… e assim de repente… estava tão bem… deitou-se ontem, até parecia bem. Só lhe doía a cabeça…. e vai finar-se assim… ai, Nosso Senhor…”, chorava uma mulher que, após análise mais cuidada, viu que era a sua.

“Tu queres lá ver? Ah, sorte madrasta… dois anos à espera da operação e agora que sou chamado para lá ir para a semana é que morro? P… que p… a sorte!”, disse o nosso doente, que só ali se apercebeu que a lista de espera, afinal, e por sua culpa, já estava desactualizada.

22 comentarios:

Fa menor disse...

Ganda texto! bolas! fico-me para aqui a pensar que tenho que marcar uma consulta antes que seja tarde de mais :P

Bom fim-de-semana

Maria P. disse...

Uma boa conversa com botões ajuda sempre, digo eu!...Quanto aos números, claro que a culpa é dos doentes, desistem de esperar pela sua vez, não sabem aguardar calmamente,enfim...à frente!

Um bom dia*

P.S. Excelente post!

Um Momento disse...

Hein?
Para já, parabéns pelo excelênte texto!
( são todos mas este , teve um "dom" especial)
Realmente deixa muito a desejar este nosso sistema,mas não só na saúde...
Fico aqui a pensar quantas vidas não poderiam ser salvas ...
O pior é realmente quando as pessoas já se foram para os "anjinhos" e ainda as chamam passados não sei quantos anos ,para comparecerem as consultas ou para pagarem algo que nem nunca fizeram...
Mas enfim... fazer o quê?...
Se até nas urgências nos mandam para o centro de saúde, que por sinaç ou está fechado aquela hora , ou o médico ainda nem está presente... ou simplesmente"não há vaga"
"Volte amanhã"...
Beijo de bom fim de semana

PS: desculpem a ausência , mas a saúde e o tempo para estes lados também não têm sido muitos

(*)

adrianeites disse...

bom post!

bom fim de semana!

sniqper ® disse...

Poderia como muitas vezes o temho feito dizer, parabéns, excelente texto, aliás como sempre..., mas de facto vou optar pela situação inversa, ficar calado, comentar o texto e , ai sim quando algo me desagradar, falar, o que sempre fiz na vida e na blogosfera e que até agora muitos ainda não perceberam ou não quiseram perceber.
Quanto ao texto meu caro, Saúde em Portugal, existe?, direi que sim, mas tendo por base a análise de que ainda existem portugueses que não estão doentes, outros esses que por esse motivo recorrem aos serviços de saúde pública, estão muito mal servidos, direi mesmo sem serviços dignos de um País que defende a tecnologia como meio de avanço económico.
Para nossa sorte, existem excelentes profissionais no sector da saúde, conscientes, dedicados e que lutam todos os dias contra a máquina, a que dita leis absurdas, a que permite a permanência de incompetentes nos serviços de saúde, a que nos conta histórias as milhentas histórias que todos ouvimos e vemos, alguns acreditam, outros nem tanto assim, felizmente.
Será que posso entrar num hospital descansado, podendo confiar que me irão tratar das maleitas que lá me levaram e, se tais forem tratadas será que não posso morrer de uma infecção hospitalar? Pois não sei, só sei que não me sinto muito confortável com tais dúvidas. Não quero saber de explicações nem de números, debitados por bocas sem olhos, que não estiveram no terreno, que ainda não foram atingidos pela máquina doente e em coma profundo que se chama Sistema de Saúde Pública.

Fernanda e Poemas disse...

Olá Amigo, passei por aqui para deixar-lhe um beijinho, mas não resisti a ler o seu texto e adorei!!!
Bom fim de semana.
Fernandinha

Alma Nova disse...

"Saúde, será que Existe?"...em tempos escrevi um texto com este título. E deixem-me dizer que muito mal está quem tem de se cingir aos serviços de saúde públicos. Se não fosse pela capacidade e luta constante de alguns bons profissionais que ainda por lá vão aparecendo, aconselharia até a nada esperarem desse sector, que é apenas mais um dos que se paga e com que pouco ou nada se pode contar. Números e estatísticas nunca resolveram nem irão resolver qualquer problema. O que são precisas é acções, essas que se perdem nos intermináveis discursos em que apenas se apresenta o que se quer, em que se ocultam dados e enfatizam outros apenas para alcançar dividendos políticos e que em nada contribuem para uma melhoria efectiva das condições de vida...E muito mais haveria a dizer, mas são apenas palavras que pouco ou nada vão alterar a situação dramática que se vive. O que precisamos é de acções!

Blondwithaphd disse...

Cryin' my eyes out!
a) for the fun of it;
b) for the hellish situation that should make us all cry;
c) for pitty sake, what a good text!!

António de Almeida disse...

-Todos concordamos que a função pública funciona mal, com poucas excepções, que existem, dentro da função pública, o S.N.S. é dos que funciona pior, quanto a isso não há dúvidas, trata-se dum serviço que derrapa financeiramente, remunera mal quem o serve, presta um mau serviço a quem serve, e ainda escorraça uns quantos, quando se afirma universal, só se fôr no financiamento, indo alimentar-se aos bolsos de todos. A questão é que fazer? Trata-se duma questão política, onde ninguém tem coragem para tomar opções. Eu tenho as minhas preferências, sou pela privatização, não me venham com a treta dos EUA, eu sei que lá o sistema não é perfeito, posso discuti-lo e apresentar alternativas, mas o que não posso aceitar de forma alguma, é o actual sistema, falhando, rebentando pelas costuras, apesar de existirem pessoas, como eu, que só pagam, nos últimos 10 anos utilizei 2 vezes o S.N.S., ambas para pedir ao médico de família uma baixa médica, a qual o homem, que se me vir na rua nem me conhece, ou eu a ele, qual amanuense, limitou-se a passar um papel que atestava a minha impossibilidade em trabalhar, na 1ª vez após ter olhado outro atestado e um exame que indicavam que eu sofria de pneumonia, no outro bastava olhar, vinha ligado depois duma operação, mas tive de passar no centro de saúde para justificar, e receber o papelinho que me permitiria faltar ao trabalho, isto após alta hospitalar, recuperando duma intervenção cirurgica. Na realidade, "ocupei tempo", com 2 consultas desnecessárias, mas continuo mensalmente a pagar em dobro, pago ao Estado despesista que não utilizo, e á seguradora que utilizo.

SILÊNCIO CULPADO disse...

Pois é, Quintarantino, há uns malandros que decidem morrer enquanto esperam ser atentidos só para baralhar as estatísticas.Só por isso mereciam morrer se não estivéssem já mortos.
Porém eu tenho uma tia que decidiu pregar-lhes a partida ao contrário. Foi-lhe detectado um carcinoma e, como ela tinha que aguardar vaga para ser operada e a vida dela dependia da rapidez da cirurgia, ela foi operada em Londres. Decorrido mais de 1 ano, sobre a cirurgia, recebe em casa uma carta do IPO dirigida à família e, na qual, aquele Instituto pretendia ser informado se a doente já tinha falecido e, em caso afirmativo, como tinham sido os seus últimos momentos.
Foi a própria que lhes respondeu!.....
Mas convenhamos: há doentes muito chatos que não sabem quando devem ou não devem morrer, para respeitarem as estatísticas. As estatísticas são para serem respeitadas e pronto.

Tiago R Cardoso disse...

Diga-se um excelente post.
De facto estamos perante situações de autentica vergonha nacional, quando se diz que existem tantos doentes em fila de espera para uma consulta ou para uma cirurgia é realmente preocupante, ficando ainda pior quando se avança que tais números estão errados porque doentes já faleceram e outros foram para o privado.
Preocupante é quando os responsáveis dizem que agora "só" é preciso esperar quatro meses por uma consulta, fico mais descansado em saber que por este nosso país quatro meses é pouco tempo...

NINHO DE CUCO disse...

Nunca estarei contente com um governo, um país ou um partido político enquanto a saúde for o privilégio de alguns. Desengomem-se como quiserem, a assistência à saúde é sagrada e tem que chegar a todos a tempo e horas e nas melhores condições. Se os partidos com responsabilidades governativas não servem para resolver a situação arranje-se outro partido. Assim, não! Ponto final! Onde é a manifestação? Estou caminhando para lá!

bluegift disse...

A chata cá do sítio vai então revelar-vos uma coisa: os hospitais do centro da Europa andam quase às moscas, melhor, eu começo a desconfiar que os tipos fazem até de propósito para não nos curarem totalmente! Não vá o diabo tecê-las e ainda perdem o emprego por falta de doentes...
Mais um pequeno grande pormenor: São TODOS privados ou semi-privados! Pois é, e vá-se lá falar de privatização e temos já o 7° de cavalaria da população a cair-nos em cima pois que privatizar, como todos sabem nesta terra (Portugal), é pecado...

Excelente texto Quintarantino, a situação foi muito bem "apanhada".

Paulo Sempre disse...

Um texto impróprio para os que estão em listas de espera...
É uma realidade que, sem apelo nem agravo, nos desassossega o real quotidiano.
Mas o Povo é "quem mais ordena"...de que está à espera?

Abraço

NÓMADA disse...

É desesperante o que se passa no SNS. Há dinheiro para tanta pompa e não há para isso que é prioritário entre as prioridades. Nós somos quase obrigados a ter seguros de saúde mas os seguros de saúde estão longe das possibilidades da grande maioria. É uma vergonha o que os governos PS e PSD deixaram acontecer e não resolveram.
Por um Portugal melhor.

Compadre Alentejano disse...

Excelente post. Parabéns.
As listas de espera preocupam-me mas preocupa-me mais esta espécie de governo que nada faz para acabar com elas,

Um abraço
Compadre Alentejano

ALEX disse...

Ah caramba, então não hei-de conferir os números.Só quem passa por elas é que sabe e eu já passei. Durão Barroso falou e Sócrates acrescentou mas a situação não melhorou e antes piorou.

C Valente disse...

Os numeros são o que são o conhecimento destes factos são antigos , mas como sempre os politicos escondem o mau, e fazem floreados com o muito pouco de bom que se alcança, veja-se o caso dos fogos, até a chuva foi uma benção dos politicos, Bolas
saudações amigas

Peter disse...

Pois é Quintarantino, a morte (dos outros) é a solução que este governo tem para nos oferecer. Ela ajuda a resolver o problema das listas de espera, do desemprego, das reformas a pagar ...
Vamos então legislar sobre a morte, criando incentivos para o aumento das mesmas.

Lampejo disse...

......

Na saúde há um abismo social enorme Quin, enquanto uns com tantos outros em recurso nenhum. E os programas sociais do governo onde estão?

No Brasil,

A pasta da saúde no Brasil é uma das que tem o maior orçamento, porém é a que menos funciona, faltam hospitais, faltam leitos, faltam médicos, remédios e principalmente... sensibilidade (ou é outra coisa!)


(a)braços, e boa sorte!

NuNo_R disse...

Os números não estão mal, estão "maléficos"... eheh
E só caminham ainda mais para ficarem piores...

abr...prof...

antonio disse...

Notícias na TVI? E depois é o sol a mais que te faz mal...